Opinião

Vislumbrar o retorno

25 abr 2020 09:49

Poder-se-á defender a vigilância biométrica como uma medida temporária, implementada durante um estado de emergência?

O medo, a alegria, a raiva, o amor ou a repulsa são fenómenos fisiológicos, tal como a febre, a tosse, o batimento cardíaco ou a pressão arterial. E a mesma tecnologia que analisa a temperatura corporal, também pode identificar estados emocionais.

Coloca-se no presente a hipótese de as autoridades governamentais monitorizarem dados biométricos e fisiológicos dos cidadãos, para poderem ter um melhor controlo da evolução pandémica.

São já inúmeras as vozes que declaram que isso conduzirá a uma perda da individualidade, da legítima capacidade dos seres humanos verem os seus direitos à integridade e independência comprometidos de forma dissimulada, matérias invioláveis que conquistámos após vários séculos em que nos batemos pela liberdade individual.

Poder-se-á defender a vigilância biométrica como uma medida temporária, implementada durante um estado de emergência?

Talvez, mas…

Mesmo após a diminuição da taxa de infecção por Covid-19 para níveis insignificantes, alguns governos podem alegar que se torna essencial continuar a monitorizar os seus cidadãos para travar novos surtos ou outras condições clínicas, o que pode traduzir-se numa enorme batalha sobre a nossa privacidade.

Quando é proporcionada às pessoas a escolha entre privacidade e saúde, elas normalmente escolhem a sobrevivência ou a imunidade sanitária.

Testes extensivos de imunidade, comunicação honesta, respeito pelas liberdades ou garantias e cidadania responsável, a par da cooperação voluntária, por certo, serão a melhor opção.

Factos científicos validados e confiança nas autoridades sanitárias conduzem, seguramente, à adopção de comportamentos assertivos, para se alcançar um bom nível de cumprimento e cooperação, visando o humanismo.

Não obstante, é sabido que quando nos confrontamos com situações de enorme impacto psicológico a mente humana reage de forma imprevisível.

Perante uma emergência, o ser humano pode registar emoções paradoxais e condutas ambivalentes, contrastantes com o padrão emocional e comportamental que lhe é usual.

O equilíbrio e o ajustamento podem dar lugar à impulsividade e ao transtorno. E isso é um desafio para todos, mas sobretudo para os que se debatem com a exposição directa ao vírus.

Contudo, não há nada mais virulento do que um medo informe a decompor em silêncio no espírito de cada indivíduo.

A ideia de fracasso ou fragilidade individual (ou civilizacional) é um espelho no qual projectamos os nossos temores que, não obstante serem invisíveis, anulam toda a sua abstracção.

A forma como iremos retornar ao mundo reactivando as rotinas e as relações no espaço público, para além das nossas casas, irá forçosamente sofrer uma espécie de reinvenção.

Conquistar o futuro irá exigir essa busca imperiosa do frágil equilíbrio entre a incerteza e a esperança, por via de uma necessária exposição ao retorno que se vislumbra no horizonte.

Tendo a humanidade perdido a vida de um excepcional escritor para o vírus – Luís Sepúlveda (apenas para mencionar um desses lutadores e heróis universais), não poderemos deixar de manter vivo o seu legado, como num sonho em que cremos infinitamente, expressão eterna de um guerreiro dos vocábulos, cujo legado na terra será sempre uma incontornável verdade, uma batalha infinita.

E então, a luz do sol projectará uma sombra na berma do caminho, ponteiro de um relógio de horas áridas, cujo eco será a medida exacta do nosso tempo.

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