Opinião
O Captain! My Captain!
Sair deste atoleiro em que o futuro se transformou
Era adolescente quando uma famosa série inglesa narrava a odisseia de um grupo de cientistas que habitava uma base lunar, quando a Lua, fruto de uma explosão de lixo nuclear armazenado no seu lado oculto, saiu da órbita e passou a andar à deriva pelo espaço.
Era a base Lunar Alfa, liderada pelo intrépido capitão John Koenig, era o ano 1999 e era o futuro.
Longínquo, evidentemente. E se aquilo se passava na Lua, podia imaginar como tudo seria cá em baixo, num novo mundo com toda a certeza limpo, ordenado, feliz e bem resolvido.
Sei agora que 1999 não estava assim tão longe mas, na altura, dava para imaginar transporte aéreo para cada família, casas a limparem-se sozinhas e uma escola tele qualquer coisa que não implicasse acordar às 07h00 da manhã; mas era sobretudo a ideia de um mundo prazeroso, onde não existiriam grandes problemas, e onde se multiplicariam as possibilidades de cada um ser e caminhar como quisesse.
Por esses anos, escutando as conversas de adultos, já tinha ouvido falar das guerras do Vietname, dos Seis Dias, do Yom Kippur, do Saará Ocidental, e do Cambodja e, embora não percebesse grande coisa, parecia-me horrível o que a imaginação me ia depois contando sobre como seria a vida nessas partes do mundo.
O tal futuro, limpo, ordenado, feliz, e bem resolvido, parecia-me, pois, o final feliz de um caminho a percorrer.
Quando, começaram a aproximar-se os últimos dias de Dezembro e o número 2026 passou a fazer parte de quase todos os desejos de bons augúrios, dei comigo incrédula.
2026? Já?! Não sei por que razão, mas surpreendi-me mesmo com o número.
Parecia-me o de um futuro longínquo, tal como me tinha parecido 1999 quando era adolescente, e foi estranho pensar que iria acontecer de ali a uns dias.
Pensando bem, se o número deste ano me parece ainda demasiado distante para ser presente, será porque o mundo em que vivemos se parece, para pior, com o que ouvia nas conversas de adultos.
Este não é, com certeza, o futuro.
Ao soarem as badaladas da meia-noite, no relógio onde já nesse passado longínquo ouvia um ano a partir e outro a chegar, pensei os meus desejos enquanto engolia as doze passas, mas fiquei-me pelos muito pessoais e pelos relacionados com os meus mais próximos.
Não me pareceu que adiantasse ter desejos para o mundo, para a paz, ou para o nosso futuro comum.
Dias mais tarde, deparei-me com a cena final do filme O Clube dos Poetas Mortos, e percebi então o que gostaria de ter desejado.
O Captain! My Captain! escreveu Walt Whitman, em memória de Lincoln, e a frase que dá o nome ao poema foi depois transformada, nesse filme, numa saudação e numa homenagem a alguém que conduz em direcção ao discernimento, à liberdade de pensamento, à coragem da escolha e, mais importante, à força anímica para encetar a luta que for necessária para o conseguir.
Todos podemos ter essa força dentro de nós, é certo, mas precisamos, mesmo, de alguém a quem possamos chamar Captain! My Captain! e nos ajude a sair deste atoleiro em que o futuro se transformou.