Opinião

Reconhecer a madrugada que foi primeira

30 abr 2026 21:30

Só quem tem medo da diferença quer apagar a liberdade. Medo do que não se conhece, do que não se procura entender

Uma madrugada nunca se repete. São urdidas no tear da vida de modo diferente pela história de cada um. Inquietas ou serenas, sacrificadas ou pujantes, desalentadas ou expectantes, numa repetição de alvoradas que nos antecipam o caminho a percorrer naquele dia.

Porém, vezes há em que a vida nos surpreende com uma madrugada diferente, distinta entre todas as outras. Madrugada que foi primeira pela rua liberta e livre a todos os caminhares. Madrugada que foi primeira pela cor dos cravos mais vermelhos naquele dia. Madrugada que foi primeira pelo reconhecimento dos outros que vimos iguais a nós após uma longa e tenebrosa noite de quase cinco décadas.

E depois dessa madrugada que foi primeira, já lá vão muitas outras madrugadas que lhe sublinharam a razão e justeza de ter acontecido. Ora com avanços, ora com recuos. Com muitos erros pelo meio como é inevitável quando se experimenta coisa nova. Mas, também, com conquistas indeléveis e que urge defender dos branqueadores do passado, dos que querem reescrever a história com falsidades e mentiras que regurgitam boca fora em falsete. De quantos falam com saudade de um passado que não viveram. É difícil reconhecer o valor da liberdade quando não conhecemos a opressão. É dificil reconhecer a liberdade quando sempre a tivemos como coisa garantida.

“A liberdade desaparece aos poucos”, disse o nosso Presidente da República aos jovens deste país, neste país ainda livre e democrático. A liberdade é reconhecer o outro como seu igual, sem excluir, sem perseguir, sem maltratar e humilhar o seu semelhante. A liberdade também se defende e perpetua pelo reconhecimento da diferença.

Só quem tem medo da diferença quer apagar a liberdade. Medo do que não se conhece, do que não se procura entender. Medo de perguntar porque sabem que a resposta pode contradizer o que acreditam. Medo de reconhecer que cada sujeito é único e diferente. Medo do novo porque temem o futuro. Têm medo dos seus próprios medos.

A democracia é o garante único da liberdade. A democracia é o reconhecimento do valor próprio de cada sujeito na subjetividade. Cabe-nos, a cada um de nós que amamos a liberdade, defendê-la em cada madrugada para que a madrugada que foi primeira não se apague. Defendê-la pela razão e humanismo, sem medo, por oposição aos discursos vácuos de verdade.