Opinião
Festa de Verão
As noites de sexta têm encontro marcado no bar do parque com os astros refletidos no espelho que é o lago
É rico, o verão, em festas. A temperatura convida aos fins de tarde que se estendem noite fora, tempo que se prolonga como uma preguiça sem culpa. Escorre fácil a cerveja fresca e a conversa desliza pelo desenho dos corpos. As noites de sexta têm encontro marcado no bar do parque com os astros refletidos no espelho que é o lago.
A cachopada brinca aos futuristas e ensaia uma coreografia ao redor do Almada Negreiros que por ali anda a fumar solitários cigarros. Um catraio com o rosto róseo suspenso dos aros grossos, come bolachas Maria que lhe empapam os movimentos.
Numa mesa, lá mais para o fundo, está um tipo a beber contos de gin tónico. Parece surpreendido por os cisnes não terem penugens em padrão zebra. Uma menina ruiva nas trancinhas, com sardas na carinha, de vestido às bolinhas, canta “beija-me muito”, mas a voz que lhe sai da boquinha é a do Francisco José, em vinil e já um bocadinho maltratado.
Um sujeito de aspeto duvidoso, por trás dos óculos com lentes fundo-de-garrafa surripiadas das sagres média que acabou de emborcar, sentado na beira do murete do lago, raspa na sola do sapato já esburacada, o esboço de uma estratégia de libertino a passearse por Braga enquanto persegue magalas com a promessa de uma nota de cinquenta escudos.
Um senhor, de cabelos brancos e olhos espantados de ver o mundo, pinta com a beata do cigarro numa tela que trazia escondida no bolso da camisa, a menina ruiva faz das trancinhas raios de um sol que lhe arde na cabeça.
O Mário Henrique-Leiria faz do bordo do copo uma linha horizontal e aprecia de longe. O Pacheco lança um impropério: “Cesariny, a cachopa não é triangular, hoje estás mesmo surrealista, pá! Deve ser da idade!”
Os funcionários, que servem os clientes na esplanada por entre cadeiras a fingir art déco, movem-se na destreza preta dos uniformes e espetam os copos sobre as mesas como bandarilheiros em traje de luzes. Quando passam rompem o coração em néon da montra do bar.
Os cupidos fugiram e estão a sobrevoar o lago tentando acertar com as suas flechas pequeninas e inofensivas os cisnes que por ali navegam. Da alameda de magnólias surge uma mulher de vestido vermelho que lhe contorna justamente a curva da anca.
Equilibra-se nos saltos agulha como um funâmbulo que paira acima dos comuns. Avança de olhos fixos no amanhã, suspende-se por um tempo longo no murete do lago e começa a caminhar sobre as águas por entre os repuxos.
Os presentes, em uníssono, expelem um oh! mais prolongado que o espanto. Os artistas tiram notas em caderninhos que trazem sempre escondidos no bolso de trás das calças.
Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990