Opinião

Comentadores e Dunning-Kruger

26 set 2026 21:00

A aprendizagem não é um processo linear: é antes feito de avanços e recuos que tornam o resultado final esplêndido, mas o caminho recheado de dúvidas, frustrações, incertezas, medos

No final dos anos 1990 dois psicólogos norte-americanos publicaram um artigo científico com as conclusões de um estudo sobre a confiança no conhecimento e capacidades individuais. Com o título “Incompetentes e inconscientes disso: Como as dificuldades em reconhecer a própria incompetência levam a auto-avaliações exageradas” (tradução minha), o estudo concluiu que a falta de conhecimento gera um duplo efeito: não só nos leva a decisões erradas, como impede sequer de perceber que errámos.

Embora tenha recebido várias críticas, as conclusões do estudo popularizaram-se com o nome dos autores: efeito Dunning-Kruger. Vemos o efeito Dunning-Kruger amiúde em comentadores televisivos. Pagos para comentar sobre todos os assuntos possíveis e imaginários, peroram com convicção e autoridade sobre fogos, futebol, guerras, e o mais recente namorado da vencedora de um reality show. E, frequentemente, não conseguem ter noção da sua ignorância sobre um determinado tema.

Embora todos nós soframos de Dunning-Kruger em alguns assuntos, é possível deixar de sofrer. Basta, para isso, aprender. Mas, aprender sobre um assunto - seja ele qual for - é difícil. Demora tempo, exige esforço, requer dedicação. A aprendizagem não é um processo linear: é antes feito de avanços e recuos que tornam o resultado final esplêndido, mas o caminho recheado de dúvidas, frustrações, incertezas, medos. E o ciclo nunca acaba, porque há sempre mais para aprender, para estar atualizado sobre os assuntos em que nos tornamos especialistas.

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Lembrei-me várias vezes deste efeito desde que foi anunciada a criação da Universidade de Leiria e Oeste. Vi várias pessoas declararem - com tanta convicção quanto desconhecimento, até de quem não entra há décadas numa universidade - que era um erro criar uma universidade, ou que os professores agora se acomodariam e deixariam de ir às empresas.

Parece-me que o argumento sugerido - e eivado de Dunning-Kruger - é que os jovens precisam de “aprender um ofício” e ir para uma qualquer empresa. Ignoram que já não se aprende uma profissão para a vida.

Ignoram que a única hipótese de ter um futuro digno é tendo conhecimento. E ignoram que a missão de uma universidade pública é formar cidadãos, não apenas profissionais.

A universidade é essencial, ainda mais hoje, para guiar pessoas, de todas as idades, no difícil processo de aprender. Com rigor, exigência, e o conhecimento científico de ponta, em cada área. E como o saber não ocupa lugar, quem queira mais que aprender um ofício, estamos de portas abertas na ULO.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990