Opinião

Antes e depois

5 abr 2026 21:30

Estamos na Páscoa, época dada a milagres e outros eventos da ordem do sobrenatural

Nunca uma Primavera pareceu tão simbólica do renascimento como a de 2026.

Pelo menos em Leiria, depois do Inverno que não só deixou as árvores destruídas, como também nos fez pensar que o dilúvio bíblico se tinha abatido sobre nós.

As feridas estão ainda presentes: os estores arrancados, as montras entaipadas, as lonas no lugar das telhas, os telhados que já não moram nos edifícios.

Se o fim do Inverno permitiu finalmente respirar fundo e arregaçar mangas para reconstruir, deparamo-nos com a falta de empresas com disponibilidade para fazer os trabalhos necessários.

A juntar aos trabalhos nas casas e empresas, pede-se (obriga-se?) ainda aos leirienses que limpem das florestas os milhões de árvores derrubadas.

Receando a época de fogos do Verão, é necessário que sejam retirados das florestas troncos e ramos.

Para auxiliar os proprietários, o Governo anunciou vouchers para a limpeza das florestas para que os proprietários recebam "de uma forma muito simples" 1.000 a 1.500 euros por hectare.

Estamos na Páscoa, época dada a milagres e outros eventos da ordem do sobrenatural.

No entanto, talvez por me faltar a fé, tenho dificuldade em acreditar que estes vouchers venham a ser entregues – sobretudo, entregues a tempo de limpar as florestas antes do Verão.

Afinal, estamos a falar do mesmo Governo que em 9 de Fevereiro queria pagar apoios em três dias úteis, – mas dois meses depois da tempestade apenas 10% das famílias tinham recebido apoios.

Além disso, nesta Quaresma, parece-me que o governo central está mais interessado noutros temas: uma nova política de deportação de imigrantes e uma reversão da legislação sobre cidadãos trans.

Ou seja, por um lado, entregar a reconstrução da região e a limpeza das florestas a um milagre – porque se tratam imigrantes como Caifás tratou Cristo.

Por outro lado, usar as causas woke como um Barrabás do século XXI: em vez de corrigir as verdadeiras injustiças, o Governo agita a turba com um número de circo para que não se aponte a sua verdadeira responsabilidade.

Qual Pilatos, o Governo lava as suas mãos ao mesmo tempo que ignora Cláudia Prócula — os eleitores preocupados com a sua vida real! — que avisa Pilatos para não condenar inocentes.

É bastante interessante a leitura que se pode fazer das metáforas bíblicas à luz de acontecimentos actuais.

Embora a compreensão de metáforas necessite de uma certa literacia (literal, não financeira), talvez com uma ajuda da inteligência artificial se possam melhor compreender os ensinamentos do livro.

Fica a minha recomendação em dia de Lava-Pés.