Opinião

Sinais particulares

23 jan 2020 01:00

Não há dia em que um verso seu não me atravesse a mente, o que pode acontecer nas mais variadíssimas circunstâncias.

Não sou uma leitora disciplinada. E tal como em muitos outros planos, também os meus hábitos de leitura obedecem a paixões.

São regra geral paixões fortíssimas e longas que tendem muito para a poesia e ultimamente, com algum espanto, para a filosofia.

Descobri a poesia de Wislawa Szymborska tarde, e desde então leio-a quase obsessivamente.

Não há dia em que um verso seu não me atravesse a mente, o que pode acontecer nas mais variadíssimas circunstâncias.

Talvez o que mais me interesse nela seja precisamente a elegância irónica e a aparente simplicidade com que nos seus poemas cruza o quotidiano e o universal, a comédia e a tragédia fazendo neles ressoar tudo aquilo que pode ser assim mas que também pode ser de outro modo. Wislawa Szymborska (1923-2012) nasceu na Polónia.

Estudou literatura e sociologia e publicou o seu primeiro poema em 1945.

O seu reconhecimento começou nos anos 50, o que se foi traduzindo por um sólido grupo de leitores e pela atribuição em 1996 do Prémio Nobel da Literatura. Foi talvez a atribuição deste prémio que tornou a sua escassa obra poética mais conhecida junto dos leitores portugueses.

Também a nível académico têm sido alguns os artigos e estudos publicados sobre a obra de Szymborska. Ora foi um desses volumes que me chegou recentemente às mãos.

Com a coordenação de Teresa Fernandes Swiatkiewicz, uma das suas tradutoras, e de Ricardo Gil Soeiro, O Nada Virado do Avesso – em torno de Wislawa Szymborska reúne textos de poetas, investigadores e tradutores da obra da poetisa que neles reflectem o seu pensamento sobre a sua poesia e a razão pela qual se tornaram seus leitores e estudiosos.

Seria possível salientar cada um destes textos por razões diversas mas recomendo vivamente a leitura do texto que sobre ela escreveu o seu secretário pessoal, Michal Rusinek.

São cerca de 20 páginas em que traça um retrato da personalidade de Szymborska, os seus hábitos, as relações com os amigos, a relação esquiva com a esfera pública, as suas horas de criação e de lazer, tudo isto atravessado por aquilo que é marca distintiva da sua poesia – o sentido de humor oportuno e inteligente mas sempre desprovido de cinismo.

Termino esta crónica precisamente com os parágrafos finais desse texto.

“É, para mim, difícil pensar nela sem admiração. Era espirituosa, às vezes implicativa, mas esforçava-se por não magoar ninguém. (…) Transmitia a impressão de ser uma pessoa frágil e delicada mas dotada de uma forte personalidade. Certa vez contou que, quando era nova conheceu o poeta Julian Tuwin e que depois lhe perguntaram se era verdade que Tuwin tinha uma mancha numa das faces. Respondeu que não reparara nisso, porque concentrara toda a atenção nos seus olhos. Tinha um olhar magnético e penetrante. Quando Wislawa me contou esta história, tomei consciência de que o mesmo se poderia dizer sobre o seu olhar. O único que não sofreu com o decorrer dos anos, olhou para o mundo, quase até ao fim, como uma adolescente. (…) Quando começou a perder esta chama difícil de denominar e de descrever, soube-se que o fim se aproximava. Mas havia ainda o seu sorriso (…). A velhice transforma a pele, coloca sobre ela uma máscara de rugas, uma rede delicada (…) que acentua a expressão facial e permite realçar mais nitidamente não só as preocupações, mas também o sorriso. Muito mais nitidamente do que num rosto jovem e liso. Os meus sinais particulares/ são o fascínio e o desespero”, escreveu Szymborska.

Estes sinais no final da vida eram cada vez mais nítidos.

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