Opinião

O grande tradutor

27 jun 2019 00:00

A doença, como afirma, prefere a solidão e exige não só «uma nova língua, mais primitiva, mais sensual, mais obscena, mas também uma nova hierarquia de paixões

«A narrativa da doença e é importante no meu oficio saber ouvi-la, só é bem entendida quando já se escutaram outras vozes, na ficção, na filosofia ou na poesia, que ajudam a apreender o seu sentido mais profundo, oculto tantas vezes nos interstícios de um discurso que tanto pretende revelar, como ocultar.

De facto, o encontro singular da clínica é feito de palavras mas, não raramente, também da eloquência de um silêncio igualmente revelador.

No prefácio do meu primeiro livro, Um Modo de Ser, escrevi que era outra a medicina quando praticada por médicos cultos. Referia-me, naturalmente, não à erudição médica mas à cultura das humanidades (…).

É possível que a minha impaciência seja apenas manifestação das desilusões fisiológicas da idade, mas a verdade é que não encontro nos médicos das novas gerações o mesmo vibrato emocional que me animou toda a vida, talvez por desconhecerem os dialectos do sofrimento, ou por recearem mergulhar num mundo de emoções que só vagamente vislumbram ou, ainda, penetrarem no íntimo de uma solidão tão unicamente humana.»

João Lobo Antunes, «O Consolo das Humanidades» in Ouvir com Outros Olhos, Gradiva, 2015 Virginia Woolf, num ensaio intitulado Sobre estar doente, sublinhava que a doença não é um assunto popular na literatura por ser quase impossível transmitir o que é estar doente.

A doença, como afirma, prefere a solidão e exige não só «uma nova língua, mais primitiva, mais sensual, mais obscena, mas também uma nova hierarquia de paixões.»*

Testemunhei processos de doença desde muito cedo. De pessoas muito próximas e de alguns amigos cuja ausência de futuro me trouxe cedo a consciência do efémero, da derrota do corpo, da impotência pe

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