Opinião

Perceções…

24 jan 2020 00:30

Os números da discriminação contra as mulheres, apesar de se encontrarem ainda em valores incompreensivelmente elevados, estão no seu nível mais baixo de sempre.

A imagem do copo meio ser para uns meio cheio e para outros meio vazio é, recorrentemente, usada para caracterizar estados de espírito individuais.

Na verdade, esta “metáfora plástica” serve não apenas para descrever estados de alma individuais como também a atitude coletiva.

Na linha do pensamento de Mark Manson, o guru das pessoas bem dispostas, Steven Pinker e Hans Rosling têm defendido que estamos errados quando reclamamos.

O progresso no chamado mundo ocidental, alegam eles, tem sido persistente e incessante, desde o início da Era Moderna e, em particular, durante as últimas sete décadas.

Apesar de ainda haver analfabetismo, as pessoas são mais instruídas e letradas do que nunca, a violência, que é uma constante da história humana, tem decrescido, sistematicamente, e o racismo já se combate por razões menores, quase caricaturais, como a comparação do futebolista Bernardo Silva entre o seu colega do Manchester City e amigo pessoal Mendy e um chocolate.

Os números da discriminação contra as mulheres, apesar de se encontrarem ainda em valores incompreensivelmente elevados, estão no seu nível mais baixo de sempre.

Apesar de continuarem a morrer demasiadas crianças, morrem menos do que alguma vez morreram, sendo que a longevidade é cada vez maior e a medicina cura mais doenças do que algum dia o fez.

Por fim, o número de vítimas de guerras e conflitos é comparavelmente menor do que alguma vez foi.

Ainda assim, protestamos e manifestamos a nossa insatisfação.

Pior do que isso, segundo os mais recentes dados, em quase todos os países desenvolvidos, os níveis de stress, o sentimento de solidão, isolamento social e as manifestações de depressão ou ansiedade têm subido, vertiginosamente, especialmente entre os jovens.

Steven Pinker, psicólogo, linguista e professor em Harvard, usa um enorme número de fontes de informação para tentar provar que as visões negativas do estado geral das coisas não têm fundamento.

Segundo Pinker afirmou recentemente em entrevista ao Expresso, “as pessoas pensam que vivemos numa época excecionalmente violenta, que a pobreza está a aumentar, que a iliteracia está a aumentar, e estão erradas, erradas, erradas. Isto não é otimismo, é aquilo que Hans Rosling chama ‘factfulness’”.

Pinker considera que o facto de a perceção do público ser aquela que é tem a ver, em grande medida, com a própria natureza do jornalismo que, ao centrar-se em acontecimentos como catástrofes, calamidades, dramas e desastres, gera o preconceito do negativo.

As notícias tendem a ignorar dados estatísticos e tendências por não despertarem o interesse, ou sequer a atenção momentânea, das pessoas, que temas como a corrupção, o terror e a devastação facilmente conseguem.

Portanto, o caminho para a felicidade passará menos pelo consumo de ansiolíticos (e pelo consumo em geral) e mais pelo valorizar do manancial de coisas positivas de que dispomos. Importa lutar por valores, porque coisas já temos, porventura, demais.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

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