Opinião

Humanidade

19 jun 2020 10:57

Emergem novas medidas para viver a relação humana que nos obrigam a mudar os nossos hábitos mas que ainda não conseguimos assimilar.

"Patrícia como está, todos bem de saúde aí em casa? E a sua filha? Para as crianças é bem mais dificil do que para os adultos, não é?!”.

Há mais de 90 dias que invariavelmente começam assim as consultas por videochamada com o António (nome fictício), numa interpelação directa e genuína à minha pessoa. Uma espécie de preâmbulo a que chamo humanidade, mas que também encerra múltiplos significados.

Por um lado, a ameça comum que acorda medos infantis e inseguranças internas mais profundas tornadas agora realidade. Por outro lado, o profundo desejo de que eu esteja bem para que possa continuar a ser a sua guardiã emocional.

Porém, ainda nos estamos todos a habituar. Nenhum de nós estava preparado. E também nós, os terapeutas, a aprender, ao mesmo tempo que, a procurar conter a angústia que vem do Outro.

São muitos os factores nesta pandemia que podem causar medo, emoção, stress, tensão.

Palavras comuns para significar o que vem de dentro, de dentro de mim e de dentro das pessoas que agora escuto diariamente através do computador ou por telefone.

São as nossas vulnerabilidades face a um inimigo imprevisível: o vírus, mas também o medo do contágio, a incerteza sobre o tratamento e a inexistência de uma vacina.

Mas são também as palavras que dão corpo às incertezas de como voltar à vida lá fora, ao trabalho, às pessoas, ao exterior.

Um regresso que pressupõe a exigência de reorganizar a nossa vida e a nossa relação com o mundo interno e externo, onde todos podemos ser veículos de contágio e a permissa está no “protege-te para protegeres os outros”.

As alterações de rotina que nos foram impostas para conter a propagação da Covid-19 pesam-nos e geram preocupações face à nossa condição de insegurança. Porque primeiro tivémos de vir a correr para casa e agora temos o desafio de começar a sair.

Sair de um “casulo” que para alguns protegeu, para outros sufocou, mas que ainda assim trouxe segurança perante este inimigo invisível mas que é real.

Emergem novas medidas para viver a relação humana que nos obrigam a mudar os nossos hábitos mas que ainda não conseguimos assimilar.

Emergem também notícias paradoxais. A realidade tornou-se distópica e diariamente vivemos o desafio de filtrar as informações. Nós, terapeutas, no lugar do outro.

As pessoas mais ansiosas. Eu mais ansiosa. E, para além do medo, outras razões nos inquietam por dentro, a mim e às pessoas que escuto: a separação da família e dos amigos, a alteração total da realidade, o teletrabalho e a gestão familiar, os limites do Eu e do Outro que agora se fundiram e a busca desenfreada de um tempo que nos escapa para a elaboração mental.

Depois também a emergência da fragilidade social com a possibilidade do desemprego e da crise económica que nos inquieta a todos. Os lutos que dificilmente serão feitos.

Tudo somado é uma exigência adaptativa muito grande.

A minha filha não gosta da escola em videochamada ou dos encontros através do Zoom.

Diz-me, por vezes com os olhos cheios de lágrimas, que assim aumentam as saudades dos amigos, de os abraçar, de lhes dar a mão, de jogar às escondidas. Como eu a compreendo. Também nós, os adultos, sofremos destas mesmas saudades.

E a sessão com o António termina: "Ver a Patrícia com esse sorriso por detrás da câmara também é bom para mim! Porque me faz voltar a sentir as nossas consultas presenciais!"

Nestes dias intensos, lembrar-me do quanto dos outros que escuto também habita em mim, é um reflexo de humanidade.

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