Opinião
Dicionário Improvisado XLV
Impressões
Chocolate
Todos os dias o idoso comia um chocolate mais ou menos à hora do pôr-do-sol.
Um pequeno chocolate de embalagem vermelha, com nove quadradinhos.
Sentava-se na sala de estar do lar, junto a uma janela; olhava lá para fora, fixando o olhar em algo indefinido ou em nada.
Depois, abria a embalagem com vagar e comia sem pressa, saboreando.
Por vezes, fechava os olhos; por vezes, chorava.
Ninguém o incomodava durante aquele ritual; claro que comer um chocolate diariamente não era saudável, mas já estava numa idade em que não fazia grande diferença.
E toda a gente sabia que aquele ritual representava um regresso ao passado, à infância; uma despedida.
A reprodução de uma memória antiga: a tarde em que o seu pai lhe dera um chocolate idêntico e ele o comera à beira da janela, olhando para o jardim enquanto os pais conversavam na cozinha.
O sol descia lá fora, os pássaros celebravam ruidosamente o fim do dia.
Ouviu a mãe rir sete vezes, e o pai duas; uma risada por cada quadradinho de chocolate.
No dia seguinte, ambos morreriam num acidente.
Irmandade
No dia em que o filho nasceu, o pai plantou uma árvore no jardim.
A sua ideia era que crescessem juntos, criança e árvore; em harmonia e cumplicidade.
E assim foi. Desde muito cedo que o menino manteve uma relação especial com a sua árvore; uma relação que foi evoluindo para uma irmandade não declarada, mas concreta.
O menino cresceu, e de repente era adulto; aprendeu que era necessário ser discreto quanto aos seus sentimentos, quanto ao que revelava de si.
As pessoas que o rodeavam tinham uma necessidade infinita de compreender e explicar tudo o que ouviam; e aquilo que não conseguiam compreender nem explicar era descartado como irracional; estúpido; loucura.
Foi por isso que nunca contou a ninguém que considerava a árvore como uma irmã gémea.
Nunca contou a ninguém que, tal como sempre acontece com os irmãos gémeos, havia entre si e a árvore um elo subtil e inexplicável, espiritual, que lhes permitia ter um conhecimento íntimo do outro.
Foi por isso que — muitos anos passados — soube que a árvore se aproximava da sua morte; sem revolta nem ressentimento, pois tivera uma vida feliz.
Também sabia (tinham tido essa conversa muito cedo, ainda na infância) que a árvore desejava morrer à beira do mar.
Tratou de tudo com serenidade, mas resolução; foi um processo caro e complexo, especialmente por causa das autorizações e licenças necessárias; mas nunca hesitou — apesar de ouvir constantes "irracional", "estúpido", "loucura".
Até que se cumpriu o desígnio de ambos e a transplantação foi feita.
Todos os dias vinha ao fim da tarde até à praia e juntava-se à árvore na sua nova casa; viam o pôr-do-sol juntos, aguardavam o anoitecer e o aparecimento das primeiras estrelas; nunca se cansavam da melodia do oceano.
Mesmo depois de sentir que a árvore já não estava viva, continuou a vir durante muitos dias.