Opinião
O segredo da Roda das Trevas
"Madre Teresa estranhou a luminosidade, mas habituada à sua fé, ergueu os olhos ao céu e agradeceu aquela benesse, sorrindo"
A Noite descansava pesada, tranquila, lenta e silenciosa, como sempre fazia quando se deitava longe de tempestades internas. A Lua dormia, igualmente, tal com ela, a sono alto e reparador.
Madre Teresa aproveitava a calmaria de noites como aquela para descansar da pressa que o mundo, ultimamente, impunha às pessoas.Eis, porém, que, de um momento para o outro, o peso da Noite se tornou leve e a escuridão deu lugar a um clarão, acordando Madre Teresa de forma repentina e inesperada.
Um guincho cortante, acutilante e abrasivo rasgou o silêncio que até aí a Noite mantivera. Como uma faca que corta vidro, descendo lânguida e cruelmente pela sua superfície, assim, aquele guincho rasgou a maciez do ouvido de Madre Teresa.
“Mais um…”, pensou, com compaixão.A Noite, incomodada, pegara em três estrelas que tinham adormecido tão tranquilamente como ela e, como se de uma lanterna se tratasse, apontou-as em seu redor, numa tentativa de vislumbrar o que poderia ter sucedido.
Madre Teresa aproveitou o novo clarão para colocar uma capa sobre as suas vestes, calçou os sapatos tão velhos como ela, acendeu a vela de cera que adormecia todas as noites ao seu lado e coçou o ouvido depois de o mesmo ter sido, pela segunda vez, ferido, por um novo guincho incisivo, mas mais débil, que voltou a estraçalhar o ambiente.
Desta vez, tanto a Noite como Madre Teresa saíram dos seus cuidados e partiram em busca do estranho som.
A Noite seguia os passos trémulos de Madre Teresa e, quando a vela que trazia se apagou, direcionou as suas estrelas para a Lua, fazendo com que ela acordasse do seu torpor e ativasse o seu Luar para que quase se fizesse dia.
Madre Teresa estranhou a luminosidade, mas habituada à sua fé, ergueu os olhos ao céu e agradeceu aquela benesse, sorrindo.
Do portão da entrada, um vapor estranho, mas intermitente, como o de uma respiração ofegante, enleava-se no ar, coincidindo com os guinchos que continuavam a ser, fracamente, emitidos. Da abertura cilíndrica que girava sobre um eixo surgiu uma pequena vida. Um recém-nascido, de pouquíssimas horas de mundo, debatia-se para sobreviver.
Era a primeira vez que Madre Teresa assistia a um tal caso, embora, como disse, já tivesse muitos anos em cima. Ali, naquela Roda que tinha a função de comunicar com o mundo exterior e vice-versa, havia um pequeno ser humano, abandonado ao frio e à mercê da morte.
Madre Teresa embrulhou-o na sua capa e dirigiu-se ao mosteiro amparada pela Lua que manteve a sua luz enquanto se mostrou ser necessário. A Noite, depois da Lua se deitar, voltou a dormir, mas já o não fez de forma pesada, tranquila, lenta e silenciosa, pois sabia que, dali em diante, tanto ela como a Lua teriam de equilibrar trevas e luz para que aquela criança vingasse num mundo onde a sombra e o brilho, de tão próximas que estão, se mesclam perigosa e imprevisivelmente.