Opinião

Desconfinar o medo

6 mai 2021 15:00

O medo é uma coisa boa. A sua perceção alerta-nos para os perigos e permite-nos tomar decisões atempadas para nos protegermos. Contudo, o excesso de medo tolhe os movimentos

Na relação que temos com o mundo das coisas, situações, pessoas, necessitamos de as sentir seguras, previsíveis e confiáveis.

Sabermos que não estamos em perigo, antevermos como irá ser o momento seguinte, sentirmos confiança no modo como agimos com um objeto, numa situação ou com alguém, é condição imprescindível para que possamos pensar a nossa relação com o mundo sem vivermos num sobressalto permanente.

Têm sido difíceis estes tempos. Assistimos a uma catástrofe global que virou do avesso o nosso quotidiano e o modo como percecionamos o mundo alterou-se significativamente.

Fomos tomados pelo medo. Um medo que se generalizou e se expandiu aos objetos em que tocamos, ao modo como estamos em qualquer situação, às pessoas com quem temos que interagir. Confinámos a vida e ficámos confinados pelo medo.

Com mais ou menos percalços vamos retomando uma aparente normalidade. Pedem-nos que sejamos comedidos e o bom-senso assim o dita.

Concordemos ou não com as medidas que nos têm sido impostas, a verdade é que, à data em que escrevo esta crónica, parece estarmos em vias de regressar aos dias tal como os conhecíamos há um ano atrás.

Aqui e ali há exceções. Algumas confrontam-nos com realidades que há muito fingimos ignorar como, por exemplo, as condições desumanas e cruéis a que estão sujeitos os migrantes explorados nas estufas de produção agrícola intensiva no Alentejo, onde à escravidão imposta se associa a falta de condições de higiene e segurança que os mergulha numa escaldada de contágio.

Outras, como o ajuntamento do fim-de-semana passado em Lisboa onde uma pequena multidão se juntou para reivindicar o direito à alegria, sendo que a polícia teve a sensatez e inteligência de não reprimir, limitando-se a dispersar toda aquela gente.

Há ainda, infelizmente, uns quantos cuja aderência à realidade não faz parte dos seus atributos de inteligência: os negacionistas, os teóricos das mil-e-uma conspirações, os que acreditam que negando o perigo anulam a sua causa.

O medo é uma coisa boa. A sua perceção alerta-nos para os perigos e permite-nos tomar decisões atempadas para nos protegermos.

Contudo, o excesso de medo tolhe os movimentos, incapacita e torna-nos inoperantes. A pandemia recordou-nos o medo, este sem forma, não tangível, que tomou conta de tudo, em qualquer situação, de todos.

É sabido que só se vence o medo enfrentando o medo. E esta é a hora de todos juntos enfrentarmos o medo, com cautela e parcimónia, mas com convicção.

As nossas crianças estão com medo. Muito medo! Vivem o presente receosas do futuro. Necessitam estar com os seus pares para que o seu desenvolvimento social e afetivo progrida de modo saudável, mas temem fazê-lo espontaneamente pelo medo de que estão impregnadas.

Cabe-nos, enquanto adultos cuidadores e esclarecidos, ajudá-las e proteger-se, a proteger os outros, mas com comedimento e bom-senso. Se não o fizermos agora, assentes na razão e no conhecimento, o contágio do medo perdurará nelas para toda a sua vida. E não podemos deixar que uma pandemia nos vença.

 

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

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