Opinião

Cuidadores do mundo, uni-vos!

26 abr 2020 09:55

O pico da qualidade de vida deu-se quando os nossos pais e avós finalmente conquistaram saúde e educação universais, e salários (mais) justos, com condições de trabalho dignas, que respeitavam o direito ao descanso e à família.

Vivemos num mundo em que a promessa neoliberal de mais qualidade de vida proporcionada por menos horas de trabalho, mais inovação tecnológica facilitadora do nossa dia-a-dia, e trabalho mais compensador e eficiente é, na verdade, uma miragem do oásis no deserto, que nos faz andar só mais uns metros, para afinal perceber que não estamos mais perto da água fresca, mas antes ainda mais dentro do forno abrasador.

O pico da qualidade de vida deu-se quando os nossos pais e avós finalmente conquistaram saúde e educação universais, e salários (mais) justos, com condições de trabalho dignas, que respeitavam o direito ao descanso e à família.

Há anos que assistimos ao degradar desses direitos e à erosão dessas condições laborais, e é com esse cenário que recebemos o vírus.

Optámos por um sistema de cuidadores precarizados, a quem não se pode pagar muito porque há que cortar nas gorduras do Estado, mas em quem agora depositamos todas as nossas esperanças, os nossos fardos, as nossas necessidades.

Agora, são os polícias que mandam as pessoas para casa a bem de todos, são os médicos que fazem turnos de 12 horas para nos salvar as vidas, os enfermeiros que tiveram de emigrar que ficam à cabeceira dos primeiros ministros que arrasaram com os sistemas de saúde em colapso, as equipas de auxiliares da acção médica de que ninguém se lembra; são os entregadores de tudo e mais alguma coisa que nos permitem ficar em casa, que fazem meia dúzia de tostões e que simplesmente não podem parar.

Os funcionários dos hiper/super/mini mercados que nos garantem comida fresca; e são os cuidadores dos lares dos nossos avós, que, com tanto sacrifício pessoal e sem condições, porque também aqui o Estado falha há tantos anos, fazem o impossível para que um vírus não varra a população idosa das nossas vidas.

São eles que sustentam o que nos é essencial.

Se dantes não queríamos ver, agora, que desculpas arranjaremos?

Lamento rebentar a bolha, mas não é de palmas nas varandas às 10 da noite que estas pessoas precisam.

Quando bater a crise económica, lembremo-nos que não é aos cuidadores que teremos de pedir mais sacrifícios.

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