Opinião
Rancor na calçada
Até o excesso de felicidade pode gerar rancor, e que “apenas um posicionamento rígido consegue embrutecer a fissura do medo”
Enquanto andava pela cidade a recolher galhos para o lume, cruzei-me com uma mulher que escrutinou a minha disponibilidade para falar sobre as diferentes fórmulas de lidar com o rancor.
Na sala que organiza em Leiria Norte, os Rancorosos Anónimos prestam serviços importantes à comunidade, disse-me.
Imaginei uma aproximação forte ao universo mais banalizado dos Cínicos, mas nesta instituição trabalha-se apenas o rancor de base.
As vítimas deste problema ligam-se a diversas excreções do mundo actual, entre elas pessoas recentemente martirizadas pela depressiva Depressão Kristin, flagelados da Autoridade Tributária, ou inadaptados do trânsito que passou a entupir as artérias da cidade.
Ouvi-a também dizer que até o excesso de felicidade pode gerar rancor, e que “apenas um posicionamento rígido consegue embrutecer a fissura do medo”.
Esta mulher, que de facto sabia ao que vinha, alertou-me ainda para esta condição doentia que “avança do condicional ao contagioso”, e que quase sempre faz do rancoroso também um sociopata: “nunca entras sozinho neste beco tenebroso, e acabas por valorizar quem age negativamente, sem te compadeceres: sabes então o que é o verdadeiro rancor.”
Foram estas algumas das considerações que registei na passada sexta-feira, não longe da porta de saída da – sempre animada – repartição de finanças.
Foi assim, melancólico - como muitas vezes me acho no período pré-estival -, que ataquei umas molejas de fricassé (branquinhas!) praticamente descongeladas, retiradas ainda não faz 15 dias do interior de um borrego terrincho, que decidi deitar numa larga cama de cuscuz com frutos secos, figos e ameixas.