Opinião
O “outro” existe?
Creio que é altura de lembrar que a NATO é uma aliança defensiva, em que, se um dos seus membros for atacado, os outros devem ajudar à sua defesa.
Meu Caro Zé Escrevo-te ainda antes da Páscoa, num ambiente global em que os compromissos já não valem, as meias verdades, ou mesmo a mentira absoluta, vão prevalecendo e os inocentes e indefesos são, como sempre, sacrificados. Não é de hoje, pois as tragédias gregas o reconheciam. Assim, Tecmessa, mulher de Ajax, de Sófocles, na Tragédia com o mesmo nome dizia que “é nos insignificantes que se firma o poderoso”.
Mas deixa-me continuar em Sófocles, agora em “Antígona”. Hémon, filho de Creonte, perante a insensatez do pai, lhe diz, depois de afirmar toda a sua devoção e de procurar defender o bom nome do seu pai: “Não te habitues, por isso, a crer, de maneira exclusiva, que só tu decides acertadamente, pois esses que se julgam com uma inteligência superior à de todos, esses, quando bem observados, não passam de poços de vaidade.” Mais adiante Creonte faz a pergunta retórica: “Hei de governar esta terra, segundo a opinião dos outros, ou segundo o meu parecer?”. A que Hémon responde: “Uma cidade não pertence a um só homem”. Creonte reage: “Então a cidade não pertence a quem a governa?” e o filho, possivelmente desolado, responde “Tu, o que mereces é governar uma terra deserta!”
A história, diz-se, não se repete, mas olha que, pelo menos, tem parecenças. Um tal Trump, bem acolitado por Netanyahu, já sem falar de Putin (e do “caladinho” Xi Jiping?) são os Creontes do presente, assumindo que, mais do que donos das suas cidades, podem mandar na casa dos outros e, invocando voláteis razões de segurança, arrasam casas e matam cidadãos indiscriminadamente. E Trump, olhando para o que não lhe correu a jeito (sem o reconhecer, é claro) chama cobarde aos membros da NATO porque não o ajudaram, ele que “sempre os ajudou”.
Creio que é altura de lembrar que a NATO é uma aliança defensiva, em que, se um dos seus membros for atacado, os outros devem ajudar à sua defesa. Trump bombardeia o Irão sem qualquer acordo prévio dos outros membros da NATO e depois exige ajuda. Não é tempo de brincar, mas não me posso esquecer daquela metáfora “Mata o pai e queixa-se de que é órfão.” Nem sequer tem o direito de, se tal for o caso, e não há disso evidência, invocar que “o ataque é a melhor defesa” porque o Irão é “uma ameaça aos Estados Unidos da América”. E para pôr isto em causa, basta lembrar o Iraque, não é? Ou, ao contrário, a não reação quando a Crimeia foi ocupada em 2014! Não haverá um Hémon nos EUA, com tantos “checks and balances”? Até sempre