Opinião
Letras | Novas Cartas Portuguesas – porquê relê-las passados 50 anos
Infelizmente em países democráticos (ou assim considerados) elas continuam a ser mal tratadas, violentadas e mortas numa espúria demonstração de pura dominação...
Com efeito, está estabelecido que o mês das mulheres (que são todos como os dos homens) é Março e só não as trouxe aqui, as Novas Cartas Portuguesas, no seu mês porque se lhes sobrepôs o triste passamento do grande escritor e meu preferido António Lobo Antunes.
E porquê (re)ler as NCP (embora muito pouco lidas e muito esquecidas), grande tributo à condição das mulheres no seu sofrimento velado, consentido, reprimido face às circunstâncias por elas vividas desde tempos muito antigos? Porque, mau grado nosso, em pleno século XXI, elas continuam grandes sofredoras, não apenas em países socialmente atrasados e repressores dos seus direitos como se passa no Médio Oriente. Infelizmente em países democráticos (ou assim considerados) elas continuam a ser mal tratadas, violentadas e mortas numa espúria demonstração de pura dominação...
Foi em Lisboa, em Maio de 1971, que as autoras, Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa – todas já com obra publicada – decidiram escrever um livro a seis mãos, tendo acordado que partiriam do romance epistolar Lettres Portugaises, publicado anonimamente por Claude Barbin, em 1669 que apresentava cinco cartas de amor endereçadas ao oficial francês Noël Bouton por Mariana Alcoforado, jovem freira enclausurada no Convento da Conceição em Beja. Ficou ainda decidido que as autoras nunca revelariam publicamente quem assinava cada um dos textos. Relevante foi a escolha das Cartas Portuguesas como texto matricial pelo peso simbólico da figura de Soror Mariana: o estereótipo da mulher enclausurada, abandonada e submissa. O livro sairia em Abril de 1972 – nove meses exatos após aquela primeira reunião das autoras – em plena “primavera marcelista”, sob a chancela dos Estúdios Cor cuja diretora literária era Natália Correia. A primeira edição do livro foi imediatamente recolhida e destruída pela censura tendo sido instaurado um processo judicial às autoras porque Marcelo Caetano o considerou de “conteúdo pornográfico e atentatório da moral pública”.
Antes, porém, o livro chegou às mãos de Simone de Beauvoir e de Marguerite Duras tendo a solidariedade da comunidade literária com as chamadas “três Marias” chegado até aos Estados Unidos. O livro denunciava a guerra colonial, o sistema judicial, a emigração, a violência, a situação das mulheres, toda a ideologia do Estado Novo. Deu-se então a Revolução e o livro ficou ligado à causa feminista e quase esquecido, embora no estrangeiro continuasse a ser traduzido e estudado. Foi reeditado em 1998 e em 2001 – edições esgotadas e, em 2010, a saudosa professora e poeta Ana Luísa Amaral organizou uma excelente edição anotada que merece o nosso apreço e a nossa leitura pela temática infelizmente ainda muito atual e especialmente por se tratar de uma obra dee alto nível literário. Como refere Maria de Lourdes Pintasilgo no prefácio, as NCP “não são uma colectânea de cartas; não são um conjunto de poemas; não são tão-pouco um romance; são talvez um pouco de tudo isso (…) porque rompem, extravasam (…) funcionam como metáfora de todas as formas de opressão escondidas e ainda não vencidas”.