Opinião

É Natal?

5 dez 2019 14:25

Natal era quando os crescidos falavam com meias palavras para não percebermos que estavam a falar dos nossos presentes

Dantes o Natal era uma coisa como um presépio vivo cheio de musgo e coisas pequeninas como ovelhas de loiça pintadas à mão. Era o tempo de adivinhar o que estaria dentro daqueles tantos embrulhos em cima dos armários altos onde não chegávamos nunca.

Era o tempo do frenesim de contar os dias e ver a meia grossa de lã pendurada na lareira e imaginar como raio iria o Pai Natal colocar todas as nossas prendas ali dentro. Era o tempo de espreitar de vez em quando a chaminé cheia de fuligem e pensar como é que as barbas do Pai Natal se mantinham imaculadas de neve apesar daquela travessia difícil e como poderia a barriga rechonchuda caber naquele funil tão estreitinho e escuro que era o caminho entre o céu e a nossa sala…

Natal era quando os crescidos falavam com meias palavras para não percebermos que estavam a falar dos nossos presentes, era quando os tios-avós e restante família apareciam vindos do nada e se juntavam à volta da canja de galinha servida em chávenas com duas – duas! – asas e quando os passarinhos de plumas a fingir saíam dos armários cheios de louça antiga para vir decorar a mesa grande.

Natal era quando a minha avó embrulhava dezenas de lâmpadas em papel celofane às cores e os empregados do meu avô – coitados – iam pendurá-las na grande ameixoeira que fazia de abeto nórdico a fingir, para termos no jardim a árvore colorida e iluminada da Leiria provinciana daquele tempo.

Natal era a certeza de o tempo ser infinito, de termos eternamente tudo e todos à nossa volta e de tudo ser bom e quentinho no Inverno que rugia lá fora.

Depois crescemos.

Sabemos então que nada é infinito, nem todos permanecem à nossa volta, nem tudo nos acompanha.

Mas, damos connosco a repetir rituais, a jurar a pés juntos que o Pai Natal virá, a pendurar as mesmas meias grossas de lã na chaminé, a esconder presentes nos roupeiros, a lembrar com saudades a canja da consoada, a tecer o maravilhoso do Natal dentro dos corações das crianças, a ver o espírito da época adoçar gente rabugenta, uma espécie de delicadeza e sefazfavores e Boas Festas a descer como um manto invisível por sobre o mundo.

E o mundo continua terrível, mau, difícil, com todas as atrocidades que o tornam sem sentido.

Mas, por breves momentos, é Natal, e desejamos do fundo de nós que haja mais dias assim, dias em que estejamos juntos, vivos, próximos, iluminados e de coração cheio.

É, pois, Natal sim senhor.

Sempre que pudermos, no resto do tempo, no resto dos dias, nas pequenas grandes coisas que tornam a vida dos outros um pouco melhor – uma pequena atenção, um grande abraço, uma mensagem, um pouco de nós – somos também o Natal dos outros e isso, sim, é para levar o resto do ano na lembrança.

Posto isto, deixemo-nos de coisas: estamos vivos.

Feliz Natal, gente!

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