Opinião

Duas referências da cultura portuguesa

8 fev 2018 00:00
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Graça Sampaio , professora

De igual modo, António José Saraiva (AJS), nascido em 31 de dezembro de 1917, em Leiria, filho do professor José Saraiva (...), foi grande opositor ao regime salazarista e militou no PCP, o que lhe valeu ter de partir para o exílio em França.

Quantos de nós estudaram pela História da Literatura Portuguesa de Óscar Lopes e António José Saraiva? Muitos, estou certa. É, com certeza, de longe, a melhor História da Literatura Portuguesa editada até hoje.

A minha comprei-a em 1968 numa 5.ª edição. Tendo sido publicada pela primeira vez em 1955, a obra chegou à 17.ª edição, sempre revistas. São mil cento e tantas páginas em que se abordam os conceitos de literatura, cultura, história e crítica literárias e nacionalidade, passando-se depois para as origens e evolução da Língua Portuguesa, para finalmente se entrar na apresentação e estudo da nossa extensa literatura desde os mais antigos textos literários em língua portuguesa coligidos nos Cancioneiros até às obras dos autores do terceiro quartel do século XX.

É, com efeito, uma obra de um enorme fôlego que apenas poderia ter sido realizada por homens eles próprios de grande fôlego, de grande talento e de uma enorme craveira intelectual. Óscar Lopes (OL), nascido em 2 de outubro de 1917 em Matosinhos, formou-se em Filologia Clássica e em Ciências Histórico-Filosóficas, foi professor de liceu no Porto e, mais tarde, professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade daquela cidade.

Embora a sua obra principal recaísse sobre a literatura, a gramática e a linguística, sobre ele a investigadora Isabel Pires de Lima escreve que dele emana «uma obra que conjuga uma enorme diversidade de saberes (da física à filosofia, da linguística à pintura, da biologia à antropologia, da música à ciência política, da matemática à filologia, da astrofísica à história.»

O seu valor intelectual e pessoal não o deixou ficar pelo estudo das “belas letras”, tendo-se distinguido na intervenção cívica e política, manifestando-se como grande opositor ao regime do Estado Novo, tendo militado no Partido Comunista Português. De igual modo, António José Saraiva (AJS), nascido em 31 de dezembro de 1917, em Leiria, filho do professor José Saraiva, reitor do Liceu de Leiria, doutor em Filologia Românica, foi grande opositor ao regime salazarista e militou no PCP, o que lhe valeu ter de partir para o exílio em França.

De igual modo se notabilizou nos campos da literatura, da historiografia e, muito especialmente da cultura portuguesa. Para além da colaboração na História da Literatura Portuguesa, e de uma enorme quantidade de ensaios que escreveu sobre a língua, a história e a literatura portuguesas, AJS dedica-se ao estudo profundo da cultura portuguesa, tendo publicado, nos anos 50, os dois primeiros de nove volumes sobre a cultura em Portugal.

E como se viam a si próprias pessoas com uma tal pujança cultural e uma tal abrangência cívica? OL não se reconhecia “nem crítico, nem ensaísta, nem mesmo essencialmente professor, linguista ou político”.

 

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