Opinião
Do essencial ao acessório
Na vida não se deve permitir que a busca pelos sedutores acessórios retire energia à construção do que é, cruamente, essencial
Foi no próprio dia da tragédia, quando a luz natural já me permitia ver os estragos que a poderosa natureza nos infligiu que decidi fazer a minha sala de estar fora de paredes, ao ar livre. Em casa, apesar de ser dia, mas às escuras, impedida de levantar os estores pela falta da preciosa eletricidade, sem ter água e sem comunicações, comecei a sentir uma angústia incapacitante e tal sentimento surgiu-me como inadmissível ao pensar naqueles a quem a tempestade roubou muito mais do que a mim.
E foi assim, sentada na minha nova sala de estar, a observar uma diferente e triste paisagem gerada à minha volta pela queda de tantas árvores, que dou de caras com o meu amigo choupo! Desprendido, ao preparar-se para o inverno, de tudo o que não lhe fosse essencial, ali estava ele! Ereto, sem se desviar um milímetro do seu espaço, resistiu e não permitiu que o vento lhe retirasse a possibilidade de um dia vir a morrer em pé!
Habituada como estou a falar com esta árvore percebi o que ela me queria dizer: na vida não se deve permitir que a busca pelos sedutores acessórios retire energia à construção do que é, cruamente, essencial; que a tristeza pela perda desses acessórios jamais se confunda com a infelicidade da perda do que é essencial.
Mas e quando alguém nos rouba o essencial, quem nos pode valer? Alguns dias passaram e agora já com luz, água e telefone eis-me aqui, de novo, a falar com o choupo. Quero contar-lhe que já sei quem nos pode valer! E fiquei a saber quando o João e a Sílvia, meus sobrinhos, após saírem dos respetivos trabalhos, me chegaram da Covilhã carregados com um gerador, lonas, cordas e um cabaz de alimentos, para que nada nos faltasse.
Também soube quando o Zé Moleiro, nosso amigo, apesar do muito que tinha para fazer na sua empresa, nos veio tratar das árvores caídas para evitar que corrêssemos novos riscos, quando o querido Pedro Valente, já exausto pelo trabalho urgente e necessário em casas de famílias, se dispôs a também nos ajudar muitíssimo e até quando a autarquia de Leiria me mostrou, com ações concretas, estar mesmo ao serviço de todos nós, habitantes do concelho.
Quem nos valerá então? Todos estes que ,oriundos da sociedade civil ou da política, nos mostram que são os valores humanos que guiam as suas condutas. Para estes, a cor da nossa pele, a nossa religião, a nossa nacionalidade, as nossas diferenças, serão sempre acessórios descartáveis na ajuda que se dispõem a dar à dignidade que sentem como essencial na vida de cada ser humano.
Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990