Opinião

As notas dissonantes

1 fev 2018 00:00
joao-lazaro-psicologo-clinico
João Lázaro, psicólogo clínico

Monólogos ao telemóvel onde, por vezes e inadvertidamente, ficamos a saber da intimidade de quem fala ou nos permitimos adivinhar o tipo de relação que mantêm com quem os escuta.

Mesmo um tipo de ouvido duro e sem qualquer formação musical, como é o meu caso, gosta de ouvir música. Faço-o diariamente e sempre que posso. Sobretudo quando me desloco de carro. Música apenas.

Outras vezes acompanhada de voz, que julgo ser outro instrumento. Mas também, e às vezes, apenas vozes que me dizem coisas e que gosto de pensar que são música para os ouvidos, por exemplo, pessoas que falam mas que sabem o que estão a dizer, com quem aprendo e que me ajudam a perceber melhor o mundo e as coisas de que ele é feito.

Por contraponto há vezes em que no rádio do carro se ouvem pessoas que gostam de se ouvir e falam e falam e falam sem dizer nada. Quando isso acontece, ou mudo de estação de rádio ou prefiro escutar músicas do meu agrado e que tenho gravadas.

Mas há um outro tipo de músicas que me encantam: as vozes e os ruídos que compõem a cacofonia da cidade grande. Conversas soltas de gente com quem me cruzo e que permitem saber de pedaços dos seus instantes. Monólogos ao telemóvel onde, por vezes e inadvertidamente, ficamos a saber da intimidade de quem fala ou nos permitimos adivinhar o tipo de relação que mantêm com quem os escuta.

Alguns pregões – que ainda se ouvem na zona baixa de algumas cidades – e são a promessa de um prémio numa fração da lotaria ou quente de umas castanhas tardias que crepitam no assador. Há também a ladainha penitente dos pedintes a par com os discursos exaltados dos loucos que dialogam com ninguém.

E em fundo o aviso agudo de uma ambulância com mil pressas e o som cavo de um avião a fazer-se à pista do aeroporto lá no alto da cidade. Com sorte ainda se ouve o tilintar de aviso do solene guarda-freios a capitanear um elétrico gingão.

Também se ouvem as melodias feitas pelos músicos de rua: um acordeão dolente aqui, mais à frente um saxofone a lembrar outras paragens, uma escaleta a debitar músicas conhecidas, todos eles na expectativa de uma moeda que lhes caia na caixa.

 

Este conteúdo é exclusivo para assinantes

Sabia que pode ser assinante do JORNAL DE LEIRIA por 5 cêntimos por dia?

Não perca a oportunidade de ter nas suas mãos e sem restrições o retrato diário do que se passa em Leiria. Junte-se a nós e dê o seu apoio ao jornalismo de referência do Jornal de Leiria. Torne-se nosso assinante.

Já é assinante? Inicie aqui
SAIBA COMO