Opinião

A cidade líquida

19 nov 2015 00:00
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Clara Leão, professora de dança

"Paulo Cunha e Silva promoveu na cidade uma cultura transversal, ecléctica e apaixonada; popular, experimental e clássica; irreverente, livre e séria."

Morreu um homem do qual muitos ouviram falar de relance e outros nem isso. Era um homem culto que pensava e fazia acontecer cultura. A maior parte da minoria que o conhecia nunca privou com ele, Paulo Cunha e Silva. São habitantes da cidade que ele sonhou tornar líquida, fluída, comunicante, como o rio que a envolve, feita de outros mil rios num leva e trás de informação, de fruição artística, de trocas de experiências e de partilha de cultura (s). Era o vereador do pelouro da cultura da Câmara Municipal do Porto, onde há cerca de dois anos o seu presidente, louvado seja, entendeu a cultura como factor de desenvolvimento económico e elemento de coesão social. E desatou os cordões à bolsa para além do imaginável dando a quem sabia a missão de fazer bem com o, apesar de tudo, sempre curto orçamento. E é exactamente de fazer bem que se trata, porque há muito quem faça mal, ou quase nada, com o mesmo dinheiro. Paulo Cunha e Silva promoveu na cidade uma cultura transversal, ecléctica e apaixonada; popular, experimental e clássica; irreverente, livre e séria.

Feita sobretudo para e pelos portuenses, porque uma cidade deve servir o bem-estar de quem lá vive e não especialmente de quem a visita. É disso que os visitantes gostam: sentirem-se dentro de uma cidade/casa que não se enfeita só para os receber. Um caso sério de sucesso e de adesão, também ela transversal. Dizem-no os factos, os acontecimentos e os números. Mas dizem-no sobretudo os habitantes anónimos que se foram juntando no enterro deste homem que era “apenas” o seu vereador da cultura. Eram de todas as idades e estratos sociais e estavam-lhe agradecidos e orgulhosos por uma cidade que passou a “olhar a contemporaneidade com o cuidado de quem olha o património do futuro, e a ter uma atitude de futuro na relação com o seu património”, palavras de Cunha e Silva. Uma cidade com oito companhias residentes nas suas estruturas municipais, uma das quais sobretudo dedicada à dança. Uma cidade em que a cultura acontece tanto nos bairros camarários e nas pequenas associações, como nas salas de espectáculos. Uma cidade aberta à criação e a todos os seus caminhos e cruzamentos, uma cidade líquida, como lhe chamou, que permite a fluidez dos encontros e as sinergias que a tornam coesa e viva. Um dos últimos acontecimentos programados foi a segunda edição do Fórum do Futuro, este ano sob o tema da Felicidade. É isto que deve ser uma cidade.

Professora de dança