Opinião

União Europeia: da vassalagem ao fim

31 jan 2026 16:20

O fim da União Europeia não resultará de um colapso económico súbito ou de uma guerra externa, mas da erosão interna

União Europeia nasceu da recusa consciente do autoritarismo, do nacionalismo agressivo e da política de força que devastaram, em particular, o continente europeu no século XX. O seu projeto assentou em valores estruturantes: multilateralismo, primado do direito internacional, defesa dos direitos humanos e autonomia política face às grandes potências. É precisamente por isso que o atual seguidismo acrítico da União Europeia em relação aos Estados Unidos, em particular sob a liderança política de Donald Trump, constitui uma ameaça existencial ao próprio sentido do projeto europeu.

Este alinhamento não é abstrato nem ocasional. Ele materializa-se em posições públicas, silêncios estratégicos e cumplicidades políticas assumidas. A destruição progressiva do sistema multilateral promovida por Trump, desde o ataque às Nações Unidas até ao desprezo pela legalidade internacional, encontrou na União Europeia não uma força de contenção, mas uma parceira silenciosa. A ausência de uma reação firme à deslegitimação da ONU revela uma Europa incapaz de defender os princípios básicos que afirma sustentar.

O mesmo padrão se repete na postura europeia face ao conflito em Gaza. Apesar de abundante documentação humanitária e jurídica apontar para práticas que muitos juristas e organizações qualificam como genocidas, a liderança europeia optou por uma defesa política incondicional de Israel ou por uma retórica ambígua que, na prática, legitima a destruição sistemática de populações civis. Esta posição contradiz frontalmente os princípios fundadores da União e corrói a sua credibilidade moral.

De igual modo, a resposta europeia à captura coerciva do Presidente venezuelano Nicolás Maduro, sem mandato internacional, revelou uma preocupante complacência com a violação da soberania de Estados terceiros. Em vez de uma condenação clara, assistiu-se a apelos genéricos à “contenção”, confirmando a incapacidade da UE de contrariar ações unilaterais quando estas provêm dos Estados Unidos.

Este vazio político tem rostos concretos. Lideranças atuais como Kaja Kallas, Ursula von der Leyen e António Costa comportam-se não como representantes de uma potência política autónoma, mas como executores diligentes da agenda estratégica norte-americana. A sua atuação evidencia uma lógica de vassalagem política que transforma a União Europeia num espaço subordinado, desprovido de voz própria e incapaz de defender os seus cidadãos ou os seus valores.

O fim da União Europeia não resultará de um colapso económico súbito ou de uma guerra externa, mas da erosão interna da sua identidade política. Uma Europa governada por elites que preferem a obediência à coerência não é uma União de cidadãos, mas um protetorado disfarçado. Sem coragem política, autonomia estratégica e fidelidade ao direito internacional, a União Europeia deixará de existir não por derrota, mas por abdicação.

Texto escrito segundo as regras do novo Acordo Ortográfico de 1990