DEPRESSÃO KRISTIN
Votação na Bidoeira de Cima esteve suspensa durante duas horas e meia por falta de luz
Mesas de voto foram reabertas já com um gerador a ser instalado, mas ainda sem haver electricidade na sala polivalente da Junta de Freguesia, onde decorre a votação para a segunda volta das eleições presidenciais
"Houve luz para a missa, mas não há para se votar". O desabafo é de Manuel Duarte, de 73 anos, proferido junto à entrada da sala polivalente da Junta de Freguesia de Bidoeira de Cima, em Leiria, onde a votação para a segunda volta das eleições presidenciais, que decorre este domingo, esteve suspensa durante cerca de duas horas e meia, devido "à falta de luz".
Essa foi a explicação que as pessoas afectas às mesas de voto passaram às dezenas de eleitores que, esta manhã, se deslocaram ao local para exercer o direito de voto, adiado há uma semana por "não haver condições" para a realização do sufrágio naquele espaço.
O argumento apresentado pelos membros das mesas de voto, no entanto, não convenceu muitos dos eleitores, até porque a retoma da votação aconteceu ainda sem haver energia no local, apesar de já estar a ser instalado um gerador enviado pela Câmara de Leiria. Segundo apurou o JORNAL DE LEIRIA, esta decisão estará relacioanda com o facto de a legislação determinar que, ao fim de três horas de suspensão, as mesas de voto sejam definitivamente encerradas.
"O que determina a Lei é que, ao fim de três horas de suspensão dos trabalhos, se a situação não estiver revolvida, as mesas de voto fecham em definitivo e não contam para o apuramento final dos resultados", esclarece e André Wemans, porta-voz da Comissão Nacional de Eleições.
Para Manuel Duarte, a falta de luz foi "uma desculpa", considerando que a situação "devia ter sido acautelada" com a colocação de um gerador afecto às eleições. "Isto não podia acontecer. Tinham de precaver a situação", criticou o homem, que reside a cerca de 200 metros do local de votação e que garantia que ia voltar para votar. "Sei que já está tudo decidido, mas vou descarregar a minha consciência".
O mesmo sentimento era partilhando por vários eleitores ouvidos no local pelo JORNAL DE LEIRIA, embora houvesse também quem assumisse que já não ia regressar quando as mesas de voto reabrissem. Não foi esse o caso de Mariana Jesus, que soube pela rádio que a votação tinha sido suspensa. Mesmo assim, dirigiu-se ao local e, depois de uma espera breve, pôde votar. "O voto não vai trazer de volta a electricidade, não vai reconstruir a nossa casa, mas temos o nosso dever a cumpri, afirmou, já depois de participar no acto eleitorar. Conta que, tal como muita gente na freguesia, está há 18 dias sem electricidade, conseguindo, no entanto, servir-se com "um gerador doméstico, para os mínimos dos mínimos", até porque "custa muito dinheiro por dia".
Em situação idêntica, Manuela Mota assumia que "o mais certo" era não voltar para votar, assumindo que, se o fizessem, seria em branco, como forma de "protesto". "É uma vergonha. Estamos há 18 dias sem luz. Tenho em casa uma idosa com 93 anos e uma criança de dois anos. Tive mesmo de pôr um gerador, mas são 45 euros de combustível por dia. Tenho uma reforma de 400 euros e o meu marido esteve duas semanas sem trabalhar, para ficar a tomar conta de mim, que fui operara, e para arranjar a casa."
Manuela Mota conta que zona da freguesia onde reside já há pessoas com energia eléctrica, mas não na sua rua. "Dizem que o PT [posto de transformação] está avariado e que somos só 'meia dúzia de casas. Mas contamos, ou devíamos contar, como os outros", desabafa, defendendo que "não devia haver eleições" na freguesia, uma vez que "já está tudo decidido". Contudo, tendo em conta a decisão de realizar o sufrágio, "as entidades devia ter garantido que havia condições". "Suspender por falta de luz... É gozar com os pobres."
O mesmo sentimento era partilhado por outra eleitora, que pediu para não ser identificada. "Não se pode atropelar a liberdade das pessoas desta maneira. O nosso voto não vai decidir nada, mas é um direito", alegava, dizendo não comprender as razões da suspensão. "Conheço a sala. Já se votou sem a luz ligada, porque tem muita luz natural. Dá perfeitamente para votar. Não percebo por que não levantam as persianas", expôs.
Segundo informação da Câmara de Leiria, até às 12:30 horas, votaram 6% dos 2.132 eleitores inscritos na Bidoeira de Cima, sendo que a votação esteve suspensa entre as 9 e as 11:30 horas.
O JORNAL DE LEIRIA tentou obter esclarecimentos junto do presidente da Junta de Bidoeira de Cima, Tiago Santos, mas, até ao momento, tal não foi possível. Também ninguém das duas mesas de voto se disponibilizou a prestar esclarecimentos. A única explicação que obtivemos, através da informação que ia sendo transmitida aos eleitores, é que a votação estava suspensa porque "não havia luz", o que não permitia "ler as listas dos cadernos eleitorais", e que, apesar de parte do sede da Junta ter electricidade, a sala polivalente não estava servida por "serem ramais diferentes".