Editorial
Uma voz que se fez ouvir
O que pode já estar a mudar é o posicionamento político e económico da região
Há quem diga que a terra ensina devagar. Mas para aprender, é preciso escutá-la, compreender os seus sinais e levar a sério as suas lições. O que o comandante sub-regional de Emergência e Protecção Civil de Leiria nos recorda na entrevista desta semana é que andamos sempre a prometer que vamos aprender, mas estudamos e agimos pouco e depressa esquecemos os fenómenos naturais que nos têm assolado, até sermos surpeendidos por outro.
É de reter esta afirmação de Carlos Guerra: “Dissemos nos incêndios de 2017, no Leslie, no apagão… mas à boa maneira portuguesa, achamos que não volta a acontecer. Quando acontece novamente, dizemos que não aprendemos nada. Este fenómeno foi de uma dimensão extrema, mas não podemos ser como o aluno que chumbou no exame porque não estudou e quando vai de novo a exame volta a chumbar porque não estudou de novo”.
O que aconteceu na madrugada do dia 28 de Janeiro na nossa região, e nos dias que se seguiram, demonstra que a prevenção e a resiliência não se garantem apenas com conferências, comunicados ou manifestações de intenções. É preciso aprender efectivamente com os erros. Isto sem retirar mérito ao trabalho das equipas de socorro, segurança e protecção civil, cujo desempenho foi, a todos os níveis, irrepreensível.
Como o combate às alterações climáticas parece uma ‘guerra’ perdida (ou pelo menos esquecida e ignorada), talvez seja prudente antecipar os possíveis efeitos da sua força e preparar as infra-estruturas para momentos críticos. Agora que se reconstrói, é o momento certo para adaptar, mudar e modernizar.
O que pode já estar a mudar é o posicionamento político e económico da região. “Leiria. Gigante económico – Anão político”, a expressão de Feliciano Barreiras Duarte, que foi título de um livro, há mais de duas décadas, perpetuou-se por traduzir a percepção sobre o importante contributo da região para a economia nacional e a sua constante marginalização no quadro político nacional.
A forma como os autarcas dos concelhos afectados – com Gonçalo Lopes à cabeça – têm reivindicado apoio para os seus munícipes, transformou-os, de certo modo, em ‘gigantes’ políticos. Agora é fundamental garantir a recuperação urgente das empresas atingidas, para que a região não se transforme num ‘anão’ económico.