Editorial

A indiferença que destrói

29 jan 2026 08:38

O aumento das infracções ambientais só pode deixar-nos envergonhados

O distrito de Leiria registou, em 2025, o maior número de contraordenações ambientais dos últimos cinco anos: 1.033. Como vos demos conta na edição passada, com base nos dados disponibilizados pelo Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR, foi um aumento de quase 28% face ao ano anterior.

Poder-se-ia pensar que estes números resultaram apenas de uma vigilância mais apertada das autoridades, mas uma leitura mais profunda e abrangente, leva-nos a uma conclusão inquietante: num tempo em que nunca se falou tanto sobre sustentabilidade, continuamos a maltratar a natureza como se fosse um bem inesgotável.

Nos últimos cinco anos, o SEPNA acumulou no distrito 3.748 infrações ambientais. A nível nacional, 2025 foi também um ano recorde, com 20.535 contraordenações e 70 milhões de euros arrecadados em multas. Estatísticas que reflectem uma realidade incómoda. Apesar das múltiplas campanhas, reportagens e projectos escolares sobre o meio ambiente, continuam a persistir os comportamentos que lesam o território: descargas poluentes, queimadas, maus-tratos a animais, falta de organização e de limpeza das zonas florestais.

Paradoxalmente, a Linha SOS Ambiente e Território registou igualmente o maior número de queixas dos últimos anos, 15.546 no total, das quais 860 no distrito. Ou seja, denuncia-se mais, o que dá a entender que existe uma maior consciência cívica, mas não em dose suficiente para erradicar a falta de respeito por um bem que é de todos. É como se vivêssemos uma duplicidade moral: sabemos o que está em causa, mas escolhemos ignorar.

A natureza é a nossa casa comum. É nela que respiramos, é dela que recolhemos água, alimentos e outros recursos naturais. O aumento das infracções ambientais só pode deixar-nos envergonhados. Porque proteger o ambiente não é cumprir uma moda em tons de verde, é garantir a sobrevivência das gerações que vêm a seguir. Se, com tanta informação e sensibilização ainda não compreendemos isto, talvez o problema não esteja na ignorância, mas na indiferença.