Viver

Trocar concertos por consertos

7 jun 2018 00:00

Paixão Victor e Sofia pertencem a gerações diferentes de uma das mais raras profissões nacionais. O primeiro cuidou de milhares de pianos, entre eles o do avô de Victorino d’Almeida e a segunda é a única mulher afinadora no nosso País

Víctor Moreira (Fotografia: Patrícia Alves)
Fotografia: Patrícia Alves
Fotografia: Patrícia Alves
Fotografia: Patrícia Alves
Sofia Gomes (Fotografia: DR)
Sofia Gomes (Fotografia: DR)
Sofia Gomes (Fotografia: DR)
Jacinto Silva Duro

Cada máquina sua manha. Pelas mãos de Victor já passaram milhares e poucas ou mesmo nenhuma tinham personalidades iguais. Com as mangas arregaçadas para prestar socorro a um piano nascido em 1847, em Estugarda (Alemanha), recebe os clientes na sua oficina no Pátio do Jordão, paredes-meias com O Nariz - Teatro de Grupo.

As artes músicas e cénicas andam de mãos dadas, num dos mais inusitados becos da cidade de Leiria. O espaço é apertado, mas, afiança, "mais do que suficiente para acolher um piano de cauda"... aliás, ainda há pouco tempo esteve ali um, para ser curado pelas suas mãos de neurocirurgião.

Também um ou outro ocasional cravo têm encontrado o caminho para o estabelecimento de recobro de Victor Moreira e ali têm recuperado das mazelas do tempo e do uso.

Brancas e negras, Sofia Gomes pressiona teclas para que pequenos martelinhos façam ressoar as cordas esticadas, produzindo o som típico, harmónico, delicado, equilibrado e facilmente reconhecível, deste instrumento. É a única mulher afinadora de pianos em Portugal.

Faz parte de um restrito grupo que conta apenas com meia-dúzia de profissionais, no nosso País. Quando a palavra “vocação” foi criada, é provável que o tenha sido a pensar nestes artífices com capacidade auditiva tão apurada que são capazes de distinguir a mais pequena flutuação no comprimento de uma onda sonora.

Sofia nasceu, cresceu e estudou Artes Plásticas e música nas Caldas da Rainha, mas acabaria por se juntar a um mestre afinador, em Lisboa, para prosseguir a profissão no mundo da música. Teclas presas, teclas soltas, vibrações anormais, tons acima e abaixo é uma arte minuciosa que só quem tem "ouvido absoluto" consegue dominar, "palpando as teclas", e aferindo a sua força.

É uma mecânica que pressupõe um trabalho de minúcia e harmonia, quase zen; retira-se vigor, quando a força sobeja, e fortalece-se quando ela é escassa. Por vezes, é preciso mesmo moldar peças à mão, nos espécimes mais antigos. É um mester que obriga a um labor de verdadeiro artesão.

O piano é um ente musical bipolar e esquizofrénico. É agridoce, é alegre, mas também melancólico, tem uma voz forte e, ao mesmo tempo, sussurrada, é um dos mais versáteis instrumentos de cordas alguma vez criado pela mente humana. Para se ser afinador, explica Sofia Gomes, deve ser-se equilibrado e impermeável aos humores do mundo.

"Ouvir é um grande desafio. Não temos muita consciência do nosso ouvido, mas ele vive condicionado pela nossa vida, pelas nossas experiências e ouvir acaba por ser uma experiência muito mais abrangente do que o que pensamos.”

Afinar implica ouvir muitas camadas de música e sons simultaneamente e, para isso, é necessária disponibilidade mental para saber vibrar e ressoar em muitas camadas simultaneamente.

“É uma experiência que tem de ser tratada sempre de um ponto de vista absoluto, não pode ser parcial. Tem de ser absorvida por todas as fibras do ser. É uma relação simbiótica. Eu ouço à minha medida e a minha medida é única", resume.

Pianos? Há muitos!
Se apenas se confiasse no senso-comum acreditar-seia facilmente que, sendo o piano um instrumento comummente atribuído às elites endinheiradas, a sua quantidade em casas particulares não fosse muito grande.

Mas não. Existe um grande número de lares que ostentam este instrumento como símbolo de statu e não só. "Há muitas casas onde o piano que foi da avó ou da mãe ocupa uma posição de destaque e honra. São como tesouros que passam de geração em geração", entende Sofia Gomes.

Mas, ao contrário de tempos passados, o pianos está acessível a cada vez mais bolsas. Democratizou-se e tornou-se mais económico. As suas linhas simplificaram-se e os materiais utilizados, embora igualmente resistentes, são mais baratos.

Na sua oficina, Victor Moreira cofia a barba e começa a contar pelos dedos de uma mão, depois, da outra e resume: “não chegam os dedos. Na zona urbana de Leiria, há bastantes.”

Pelas suas contas, presta assistência a 47 clientes particulares e regulares, a quem afina e prepara os instrumentos. “Há também o Orfeão de Leiria, que tem 17 pianos dedicados ao ensino dos seus alunos, o Teatro José Lúcio da Silva e o Teatro Miguel Franco. Na Marinha Grande, o Teatro Stephens e o Sport Operário Marinhense também me mantém ocupado", contabiliza.

O “ouvido absoluto” de Victor Moreira
Trata os pianos por tu desde 1960. Com 77 anos concluídos no dia 19 de Maio e natural do Porto, vive em Leiria há 31 anos. Victor Moreira descobriu o mundo dos pianos quase sem sair do lar, quando ainda não tinha 15 anos. Na casa em frente, na Invicta, havia uma pianista que o fascinava. Passava os dias sentado em frente da porta a ouvir a música que brotava da sua janela aberta.

“Um dia, ela perguntou-me se gostava da música e eu disse que sim. Levou-me lá a casa e pedi-lhe que tocasse uma das minhas músicas favoritas, a Granada. Ela tocou e eu tomei notas na minha cabeça. Depois, sentei-me ao teclado, e toquei uma parte da canção e ela disse-me que eu tinha 'ouvido absoluto'."

A vizinha ficou entusiasmada com aquele prodígio de 14 anos que jamais havia tido aulas numa escola, e acolheuo como discípulo. Uma semana depois, Victor já tocava músicas apenas de ouvido. Passado pouco tempo, deixou a escola e foi em busca de trabalho. Descobriu-o na Loja Ruvina, no Porto.

"A par da Valentim de Carvalho, era a melhor casa de comércio de instrumentos musicais", recorda. Os dias eram passados a desencaixotar pianos que vinham dos fabricantes alemães e ingleses e, como, naquele tempo, tudo se aproveitava, Victor dedicava parte do tempo a endireitar os pregos que, antes, retirara das caixas onde os instrumentos eram acondicionados para transporte.

Cansado de martelar pregos numa bigorna, o jovem Victor percebeu que, quando as oportunidades escasseiam, há que promovê-las. Descobriu o caminho para a sala dos pianos, onde o afinador os preparava a fim de serem entregues nas casas onde as crianças falavam francês e aprendiam piano desde cedo.

Passou os dedos pelas teclas e deixou brilhar a alma de artista que se escondia, ainda pequenina, no peito. "O afinador olhou para mim, descrente, e perguntou onde tinha estudado piano. Expliquei que só tinha tido aulas durante 15 dias com a minha vizinha.” A singeleza da respostas valeu-lhe uma promoção.

Deixou a bigorna e os pregos e foi para a oficina das máquinas. Ali, pela porta pequena, aprendeu a fazer consertos, já que a porta grande, para os concertos, jamais o cativou. "Ser pianista é bonito e adoro tocar piano, mas paga pouco. Custa muito viver dos magros rendimentos de músico."

Já com anos de profissão, a cidade do Lis saiu-lhe ao encalço porque a Gulbenkian precisava de contratar os serviços de um afinador na zona Centro. No Porto, Victor dividia o trabalho com outro colega, pelo que decidiu fazer as malas, agarrar na família e fixar-se em Leiria. "No País, éramos só quatro afinadores. Hoje, somos mais... Já somos seis."

O piano mais antigo e ilustre que teve "o prazer" de reparar era do avô do maestro António Victorino de'Almeida. E a história por detrás desse encontro já a contou várias vezes, de tão viva que está na sua mente. O maestro e o afinador já se haviam cruzado na Ruvina, no Porto, mas foi com surpresa que recebeu um telefonema da Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira para o informarem que ia a caminho da sua oficina um piano de cauda, com 190 anos, para reparar.

Desconfiou e estranhou. Afinal, ainda não havia dado um orçamento e sequer tinha acertado a recepção. Mas não era engano. O piano chegou por volta das três da manhã e a reparação foi ainda demorada, dada a idade do ancião instrumento. "Nem discutiram o preço e mandaram-me logo a metade do dinheiro. Fiquei admirado", admite.

Hoje, continua a dedicar o seu tempo aos seus amados pianos. Neste momento, está a trabalhar em dois. Um deles, ostenta uma aristocrática patine e foi construído durante o Ultimatum britânico.

A escolha de Sofia
Está a trabalhar em Lisboa, mas a vida de Sofia Gomes é, diz a própria, um "project

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