Entrevista

Frederico Lopes: “Em contextos adversos,  o brincar é tão fundamental como comer, dormir ou ter abrigo”

26 fev 2026 08:01

O presidente da IPA Portugal defende que o brincar deve ser tratado como uma das prioridades na reconstrução do território marcado pelos estragos da tempestade. E sublinha que a brincadeira é uma ferramenta de reparação emocional, união comunitária e transformação das políticas locais

Que mensagem veio deixar à população da Marinha Grande?
Este encontro surgiu a convite do movimento Gente que Brinca e da Associação Cultural e Recreativa da Comeira. A proposta inicial era fazer uma comunicação sobre a importância do brincar e o seu papel como elemento de união entre pessoas de diferentes idades e contextos. O brincar cria pequenas comunidades e tem impacto tanto no desenvolvimento e bem-estar das crianças como nas relações entre adultos e nas dinâmicas intergeracionais. Existe na Marinha Grande a vontade de criar um movimento que una a comunidade a partir do brincar e eu achei a ideia muito relevante, sobretudo porque, embora todos digam que o brincar é importante, nem sempre isso se traduz em acções concretas. Projectos comunitários como este ajudam a tirar o brincar da invisibilidade e a colocá-lo no centro das prioridades locais. Enquanto presidente da Associação Portuguesa pelo Direito a Brincar (IPA Portugal), é fundamental conhecer estes movimentos e apoiar a criação de redes locais que reforcem o brincar nas comunidades. Estes processos ajudam a sensibilizar autarquias e entidades públicas e podem influenciar políticas locais. Há já alguns municípios com políticas para a promoção do brincar, mas ainda de forma incipiente. Movimentos de baixo para cima são essenciais para reforçar essa transformação. Este era o enquadramento inicial. Entretanto, a tempestade Kristin trouxe um novo desafio: como o brincar pode ser também uma ferramenta terapêutica e ajudar crianças e comunidades a reorganizarem-se depois de um evento traumático.

A tempestade destruiu escolas, espaços públicos e deixou casas sem electricidade e comunicações. Que impacto imediato e futuro isto pode ter no bem-estar das crianças?
Em situações de crise, as necessidades básicas mais urgentes são naturalmente priorizadas. Mas frequentemente o brincar é tratado como algo secundário e não deveria ser. Em contextos adversos, o brincar é tão fundamental como comer, dormir ou ter abrigo. Há uma necessidade básica de desenvolvimento e bem-estar. Quando espaços e rotinas são afectados, as oportunidades para brincar diminuem drasticamente. No entanto, é precisamente nestes momentos que o brincar deve ser visto como prioridade, porque contribui para a recuperação emocional e para a estabilidade das criançaas e da própria comunidade.

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