Desporto

Tais pais, tais filhas

5 dez 2019 08:58

Leonor Rodrigues e Rita Horta são duas jovens de 16 anos, a frequentar o secundário, que aliam o convívio com os amigos, as aulas e a dança à competição automóvel. Aos fins-de-semana, largam os teclados dos computadores e os telemóveis, descalçam as sabrinas de dança e agarram o bloco de notas, para serem navegadoras ao lado dos pais

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Leonor e Jorge Rodrigues, à esquerda, e Rita e Carlos Horta, à direita
Jacinto Silva Duro
Jacinto Silva Duro

Em Leiria há duas equipas que aceleram nas provas de automóveis clássicos e cujas navegadoras são duas jovens de 16 anos que, ao lado dos pais, lutam, taco a taco, pela melhor qualificação do circuito. Leonor e Rita conheciam-se apenas de vista, mas, na pista, reforçaram laços de camaradagem, competindo, ao segundo, para dar as melhores indicações de aceleração, travagem e viragem, aos seus pilotos.

"Eu e o Jorge, pai da Leonor, não somos exactamente pilotos da mesma classe, mas somos ambos clássicos", brinca Carlos Horta, pai de Rita e adianta que o desempenho de ambos, em pista, é parecido. "Ainda há dias, no Lizauto Motor Show, andámos a competir ao segundo."

Ballet sobre rodas
Voando vai; Leonor na estrada preta. Vai na brasa, não de lambreta, mas de BMW. Se António Gedeão houvesse conhecido Leonor Rodrigues, com toda a certeza lhe dedicaria o Poema da Autoestrada, inspirado no verso de Camões. Com 16 anos, a jovem frequenta o 11.º ano na Escola Secundária Afonso Lopes Vieira, em Leiria. Quando terminar os estudos na área de Ciências e Tecnologias, já sabe o que vai seguir. "Desde pequenina que sei. Ou Medicina ou Pediatria ou Enfermagem. Qualquer coisa nessas áreas."

A luta para conseguir as melhores notas, assegura, é diária. Aliás, notas é mesmo com ela. Quando não está a frequentar a escola ou as aulas de Dança, na Escola Studio K, senta-se, ao lado do pai, no lugar de co-piloto de um BMW 318i E30, um clássico fabricado em 1982. Enquanto Jorge se concentra na pista e nas manobras, Leonor dá-lhe as notas.

É a navegadora de serviço e diz que essa, tal como a escola, também é uma tarefa complicada, embora o pai, um velocista dos sete costados, seja um bom pedagogo. "Também acontece juntar ambas as tarefas. Estivemos a competir na Cela, Alcobaça, e eu tinha de estudar Fisico-Química, porque tinha teste nessa semana e tive de conciliar tudo."

Leonor e Jorge Rodrigues


Já sabemos que Leonor é bailarina, mas, em pista, é Jorge, 52 anos, empresário do ramo automóvel de após-venda, que se embrenha num bailado e jogos de pés, entre o acelerador, travão e embraiagem, muitas vezes com um cheiro de pliês, de pas-de-deux, dança jazz e até de sapateado.

O amor pelos carros e pela velocidade corre quente e furioso pelas veias de ambos e os enjoos, tão frequentes a quem tem de manter os olhos num bloco de notas, não são para Leonor. Isso é para meninos. Com o ar à sua volta, intensamente perfumado com o odor a gasolina, a navegadora, "desde pequenina, quase bebé”, que acompanha o pai nas corridas. “Sempre gostei muito de o ver a correr. Íamos para o Porto, para a Boavista..." Jorge começou a competir na classe mais baixa das corridas, no karting.

MODELO INOVADOR
SOBRE O LEIRIA FESTIVAL RALLYE
Entre os dias 6 e 8 de Dezembro, o Núcleo de Desportos Motorizados de Leiria (NDML) organiza o Leiria Festival Rallye, um evento de índole desportiva que o NDML diz ser novidade em termos nacionais. Desde logo, este rallye deixa cair as classificações por tempo - velocidade e regularidade -, substituindo-as pelo conceito de espectacularidade.

E será o público a pontuar as máquinas e os pilotos que se irão mostrar em oito Provas Especiais de Demonstração (PED), distribuídas ao longo de 150 quilómetros, dentro do concelho de Leiria, com 50 dos quais em modo demonstração. A assistência votará não apenas o desempenho do piloto, mas o carro mais original ou mais bonito.

O rallye acontece entre a tarde do dia 7 e 8 de Dezembro. Segundo o presidente do NDML, Pedro Alves, a ausência de classificativas por tempo permitirá que muitos carros mais clássicos possam voltar às pistas sem que os seus proprietários tenham receio de os danificar. “Sem riscos, sem preocupações, só espectáculo. Vai ser um festival de estrada, não sendo um rallye.”

O responsável sublinha que a prova conta com participantes de fora do País. “De bem longe… Porque Portugal está na moda!” A organização aposta numa participação próxima do público e criou 14 Zona de Espectáculo, no per- curso que será realizado em Leiria (Cruz de Areia e Mourã), na Zicofa (Classificativa Nocturna), Bidoeira e Milagres, para melhorar a segurança e interacção com os pilotos. Haverá ainda um kit de espectador com uma lista dos inscritos – carros e pilotos -, recordações e livre-trânsitos.

“Corri nas pistas da região - o Kartódromo Internacional de Leiria, do Núcleo de Desportos Motorizados de Leiria, o kartódromo de Fátima, o da Batalha -, fiz alguns troféus e, depois, entre 2003 e 2005, passei para a velocidade, num Datsun 1200", recorda o pai.

A participação no Troféu Datsun foi o "empurrão" que o levou a outras categorias do desporto automóvel. Porém, as exigências da vida profissional levaram-no a adiar o sonho de ser o novo Tänak, Ogier ou Loeb. Com o passar do tempo e como já tinha o BMW na garagem, resolveu voltar às pistas.

"O Datsun iria precisar de muitas evoluções, porque o troféu acabou e eu teria de passar para outras classes." Equipou o 318 com um rollbar, fez-lhe outras modificações, e, desde há seis anos, a aposta tem sido na evolução do veículo, sempre com Leonor à boleia da equipa.

Locais como os circuitos de Jarama, Vila do Conde, Braga e Estoril tornaram-se uma segunda casa para a jovem de verdes olhos brilhantes. A promessa era antiga. Quando ela fizesse 16 anos, o pai "contratá-la-ia" como navegadora.

Aos olhos da jovem, o décimo sexto aniversário nunca mais chegava, até que, este ano, como prenda de aniversário, recebeu uma caixa com um capacete cor-de-rosa, inteiramente personalizado, que ostentava o nome "Leonor Rodrigues".

Era, oficialmente, a nova co-piloto de Jorge Rodrigues. Lançaram-se para as pistas e estiveram presentes, em Setembro, no Leiria Sobre Rodas, dias depois, aceleraram pela Zicofa, no Lizauto Motor Show, subiram a Cela e o próximo será o Leiria Festival Rallye 2019, organizado pelo Núcleo de Desportos Motorizados de Leiria, e que começa amanhã, dia 6 e se estende até domingo.

"Na linha de partida, da primeira vez, estava muito nervosa. Nunca tinha participado numa competição e temia que não soubesse dar bem os tempos. Só tinha treinado em circuitos pequenos."

Para se ser navegador, não basta ocupar o lugar do pendura e começar a debitar notas acerca dos obstáculos e velocidades a que o piloto deve seguir. É preciso estudar, fazer um curso e fazer um exame.

"Temos de nos adaptar àquilo que o piloto prefere. Vou informando o meu pai e aviso-o se há uma 'direita' ou 'esquerda longas'. Apesar de um pequeno problema com a caixa de velocidades, a primeira experiência correu bem. "Consegui acertar quase tudo e isso fez-me ganhar confiança. Depois, em Cela, tivemos um bom desempenho e alcançámos o quarto posto na Geral", conta.

No futuro, espera trocar de lugar com o pai. Mas só após os 18 anos. Até lá, tem ainda de lidar com um quotidiano muito cheio, entre os livros da escola, a dança, os amigos e o automobilismo. "Os carros têm de andar e o intuito futuro é eu trocar de lugar com ela. Ela senta-se ao volante e eu fico com as notas de navegação", brinca Jorge.

Passagem de Testemunho
Desde que, há quatro anos, o pai começou a inscrever o Ford Escort 2000, de 1973, em provas automobilísticas que Rita Horta, 16 anos, o acompanha na aventura de queimar borracha e acelerar no asfalto.

Rita e Carlos Horta

"Íamos ao kartódromo, nos Milagres, mas só comecei a ir com ele em provas, após ter concluído os 16 anos, que é a idade mínima." Antes disso, acompanhava da bancada, o progresso de Carlos Horta, o pai, e do irmão Pedro, que, antes dela, era único dono e senhor da posição de co-piloto. "Assim que fiz 16 anos, reivindiquei o meu direito e tem sido uma batalha constante para alternar com ele no lugar do pendura", explica, divertida.

Carlos, proprietário de uma empresa de alumínios, lava as mãos do assunto e assegura que jamais promoveu qualquer picardia entre ambos. "Aprecio imenso tanto um quanto o outro, como navegadores. Para resolver o conflito, estipulámos que iriam à vez", conta.

Porém, o piloto abre um parêntesis. Quando a competição é mais séria, leva o filho mais velho e já com maior experiência. "Mas apenas porque a Rita ainda está a aprender e a dar os primeiros passos." Tal como Leonor, também Rita é aluna do 11.º ano de Ciências e Tecnologias, mas frequenta a Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo.

A primeira prova onde participou foi o circuito da Zicofa, em Leiria, durante o 9.º Lizauto Motor Show, em Setembro deste ano. A jovem reconhece que sentiu algum nervosismo, mas assegura que os treinos com o pai serviram para a tranquilizar. "À medida que o dia ia decorrendo, ia deixando de estar nervosa e acabou por correr tudo bastante bem."

No livro de notas de Rita, o cheiro a gasolina e a borracha queimada deixaram de ser novidade há muito. Lá em casa, os filhos já anunciaram ao pai que, um dia destes, vai ser ele a ficar na bancada a torcer por eles, enquanto aceleram pela pista. Ora um ora outro ao volante. "Não sei se ele irá passar o testemunho assim tão cedo", prevê Rita.

Já Carlos Horta admite que a mudança é provável que aconteça mais cedo do que mais tarde. É que Pedro já insiste com ele para dar "umas voltinhas" aos comandos do Escort equipado com o motor mais musculado do Ford Pinto, mas será ainda como navegador que irá fazer dupla com o pai, amanhã, no Leiria Festival Rallye 2019. <

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