Desporto

Paulo Bernardo: “As pessoas não têm noção de que é necessário para se ser medalhado olímpico”

1 jul 2016 00:00

O 'team leader' da equipa de atletismo de Portugal nos Jogos Olímpicos é de Leiria. Fomos perceber os receios e as ambições da modalidade na maior evento desportivo do planeta.

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Jacinto Silva Duro

Será o team leader da equipa de atletismo nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Quais serão as suas funções?

Os atletas treinaram oito, doze, quinze, até vinte anos para chegar aos Jogos Olímpicos, a prova mais importante do mundo. Naquele momento, a ansiedade é mais elevada, existe muito mais nervosismo e existe um foco de atenção mediática que só existe de quatro em quatro anos. O meu papel será garantir que atletas e treinadores têm a tranquilidade necessária para poderem estar ao melhor nível, sem se aperceberem do que quer que seja que possa limitar ou condicionar os treinos ou competição.

Os Jogos Olímpicos são no Brasil, um país em convulsão.

Em Maio estivemos no Brasil, nos Jogos Ibero-Americanos, e uma das intenções de lá ter estado foi precisamente poder precaver alguns problemas. Ainda estava tudo muito atrasado. Fui visitar os locais de treino oficiais, que deveriam estar prontos há um ano, e nem sequer tinham o tartan colocado. A Aldeia Olímpica está acabada, mas está interdita porque havia um diferendo com a empresa fornecedora de água. Os acessos estavam ainda muito atrasados. A promessa é que vai estar feito. Vamos ver.

As questões de seguranças são uma preocupação?

Sinceramente, não muito. Acredito que vai haver um reforço muito grande ao nível do policiamento. Certamente que o Brasil irá correr o mínimo de riscos possível. Claro que terá de se ter mais cuidado do que se fosse em Londres, mas essa é uma questão de bom senso. É não ostentar, não andar sozinho... As notícias são recorrentes. Há atletas que estão a estagiar no Brasil e todos as semanas há assaltos. São situações que são reportadas para a Europa e que, para lá, como eles dizem, é mato.

Como reagem os atletas a esse foco mediático que apenas surge de quatro em quatro anos?

Gostam, mas sentem-se injustiçados. O atletismo está ao nível do futebol na dificuldade em conseguir resultados de relevo. Só estas são comparáveis, porque só nestas é que a universalidade é real. O facto de um atleta conseguir qualificar-se para os Jogos Olímpicos já é um mérito imenso, porque só estão os trinta melhores do Mundo em cada uma das disciplinas. Quem está entre os candidatos às medalhas, como o Nelson Évora, a Sara Moreira, a Patrícia Mamona, a Jéssica Augusto ou a Dulce Félix, tem um acompanhamento da comunicação social que é ao longo de todo o ciclo olímpico. Têm tanta exposição no estrangeiro que Portugal tem de ir atrás e acaba por proporcionar parte do reconhecimento que lhes é devido. A todos os outros, a nossa cultura desportiva ainda carece de actualização.

Irrita quando os jornalistas falam de medalhas?

O que irrita é a ignorância das pessoas, porque lembram-se de quatro em quatro anos de ver quantas medalhas o atletismo traz. Exige-se ao atletismo o que não se exige a mais nenhuma. Percebo que existe porque o atletismo tem sido o principal fornecedor do medalheiro olímpico, mas as pessoas não têm noção de que é necessário para se ser medalhado olímpico no atletismo. Até parece que está ao alcance de qualquer um que treina, mas não está. Tem de ter um talento inato incrível e depois ter a sorte de ter um treinador que tenha a capacidade de o ajudar a chegar o mais longe possível, e uma família, um clube, e uma federação que dêem as condições necessárias para que o atleta exprima todo o potencial.

Os atletas estão preparados para falar com os jornalistas?

No estágio de preparação para o Campeonato da Europa, que está a decorrer em Leiria, o responsável pela comunicação da Federação Portuguesa de Atletismo vai intervir junto de todos os atletas e treinadores de forma a avisá-los para todos os cuidados que precisam de ter para não ficarem marcados pela negativa. Têm de estar preparados para três cenários: a catástrofe, um resultado mediano e a superação.

O problema é quando é um bom resultado para o atleta não o é para o jornalista.

É o problema da cultura desportiva. Infelizmente, temos poucos jornalistas especialistas, que saibam de modalidades. Há muito a escrever sobre futebol, que é relativamente simples, mas no atletismo temos 23 disciplinas e para um jornalista perceber minimamente de cada uma delas já tem de ter um historial desportivo muito rico. É tão caricato que até à semana passada éramos o único país da Europa que não tinha comprado os direitos para a transmissão televisiva do Campeonato da Europa de atletismo. É chocante, uma afronta e uma falta de respeito pela modalidade.

Estes atletas privam-se de muita coisa.

Sem dúvida. Quem é atleta adia uma parte muito significativa do seu futuro durante dez, quinze, vinte anos. Tem um preço que dificilmente será recompensado financeiramente.

Todos os atletas que vão aos Jogos Olímpicos são profissionais?

Não. Temos até quem trabalha por turnos, como o marchador Sérgio Vieira. Esta semana estava a sair às onze da noite. Trabalho manual! Claro que depois não é compatível querer que atletas que não se podem dedicar em exclusivo à modalidade tenham classificações no top 10. É impossível. Não há milagres. E muito se faz com o que se tem.

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