Sociedade

Nuno Costa Santos: “Estamos sempre a entregar o nosso destino nas mãos dos outros”

12 mai 2016 00:00

O escritor passou pela Arquivo Livraria, em Leiria, para deixar uma pergunta no ar: “será que a vida é um céu nublado com boas abertas?”

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Jacinto Silva Duro

Cronista em publicações como a Sábado ou o Observador, recusa ser um anunciante de panaceias para os males do País até porque “já há demasiada gente indignada para também o ser”

Está cansado de lhe fazerem sempre as mesmas perguntas sobre o seu avô e sobre o seu primeiro romance, Céu Nublado com Boas Abertas?
Não, não estou propriamente cansado. Por vezes, há um efeito de repetição, mas tento sempre acrescentar algo de novo, quando faço uma apresentação. Há sempre ângulos e camadas novas sobre as quais falar. Claro que há uma base narrativa inultrapassável com os seus protagonistas, com a história do meu avô, com a história da minha avó. Com o lado dramático de ele tentar suportar a doença e há a história do protagonista-narrador que vai em busca de histórias, conforme o desejo do meu avô. Realço sempre que o livro está entre a verdade e a ficção. Peço às pessoas para, no melhor dos sentidos, desconfiarem de mim, como devem desconfiar de todos os autores. Há um autor norte-americano, David Shields, que diz isso de forma lapidar: “toda a memória é ficção”. Identifico-me muito com essa frase. Além da memória, há artifícios, há recursos ficcionais que uso, de forma a criar uma narrativa que seja o mais interessante e cativante para o leitor e para mim.

Como aconteceu a descoberta do livro do seu falecido avô, que continha um recado dele para “um descendente que se interesse pela escrita,” ir “a São Miguel e trazer, no regresso, um conjunto de histórias do presente da ilha”?
Aconteceu há mais de 20 anos, quando cheguei a Lisboa, vindo dos Açores. Vim estudar Direito para a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e fui morar para uma casa da Estefânia, que era dos meus avós. Ali, além de sorver a biblioteca do meu avô, onde encontrei autores que me formaram, como Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro, também estava um livro, dactilografado e manuscrito. Um original do meu avô sobre a sua experiência enquanto doente com tuberculose, no Caramulo. Li o livro e ele ficou dentro de mim.

Há algo que gostaria de ter perguntado ao seu avô, depois de ter lido os seus manuscritos?
Quando ele morreu, eu era criança. Teria uns 10 anos. A imagem que guardo dele é a de um homem doente com uma garrafa de oxigénio ao lado. Penso que não precisava de saber mais informação, porque toda a que precisava estava no livro dele. Foi a partir dessa matéria existente, matéria de facto - para utilizar uma linguagem jurídica - que trabalhei. Fiz disto literatura. Há aqui um aspecto que não se pode esquecer: o relato dele é literário, à maneira dele. Tudo isto foi construído de forma a ser literatura, transcendendo o mero desabafo ou confissão. O material que tenho do meu avô foi suficiente para criar o diálogo. Não queria mais pormenores biográficos. Identifico-me muito com um ilusionista, que parte de elementos reais que estão à vista, em cima da mesa, e tenta ludibriar o espectador. Aviso sempre que há um lado de artifício em várias partes do livro, mas a dimensão real, de fundo, essa matéria orgânica e essa experiência extrema que o meu avô viveu, de tuberculose, de doença, de ir de uma ilha açoriana para outra “ilha” no Caramulo. Todo o ambiente que ali se vivia e que não era apenas trágico, mas tinha também um lado de amizades, cultura, cinema, teatro... Tudo me interessou, até as cartas que os meus avós trocaram. Ele esteve seis anos lá e trocou muita correspondência com a minha avó e, ao quarto ano, ela foi ter com ele, numa prova de grande coragem e dignidade. A minha avó esteve lá e andava de braço dado com algumas tuberculosas. Usei as cartas trocadas entre eles para explorar o real. Gosto de ver isso na literatura, em documentários, na comédia, onde a personna não se distingue muito do autor, como é o caso de Nanni Moretti.

Deu o nome Um Céu Nublado com boas abertas ao seu livro… É um sinal de “optimismo açoriano”?
Tem as duas dimensões. Uma mais sombria, negra e nebulosa… este título aplica-se a várias dimensões do próprio livro: à vida do meu avô, que foi difícil e de doença. Foi um dos primeiros casos do País que teve de retirar um pulmão, mas reergueu-se. Teve uma profissão, tornou-se gerente bancário em São Miguel. Teve uma família, foi ao cinema, dançou no Carnaval… teve as suas boas abertas. Ao mesmo tempo, esse título também se aplica à própria tuberculose que é nebulosa e é uma mancha no pulmão. A condição humana também passa por aqui, por mais que as pessoas se tentem ludibriar com as boas fantasias que querem e que lhes tentam vender. Estamos aqui de passagem e temos muitas dificuldades e agruras.

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