Economia

"Nenhum pai quererá ter um filho pedreiro em vez de engenheiro"

16 mai 2019 00:00

Paulo Silva Santos, presidente da Aricop, fala dos desafios colocados ao sector da construção pela falta de profissionais, nomeadamente jovens

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Raquel de Sousa Silva

"Um pedreiro que seja um bom profissional aufere no presente momento um vencimento claramente recompensador, acima da média salarial do País e mesmo superior a muitos licenciados"

Há jovens de 17, 18 anos a sair da escola e a entrar no mercado de trabalho como aprendizes de pedreiro ou de carpinteiro?
Não tenho conhecimento de registos oficiais e fidedignos do assunto. Creio, no entanto, que esse fenómeno será tão menos provável quanto mais urbano for o meio onde os jovens se encontram inseridos. Haverá, contudo, que considerar questões que se justificarão por tradição familiar e de continuidade de negócios.

Por que é que não há?
Hoje, e de há muitos anos para cá, aos jovens é proporcionado um percurso de escolaridade até ao 12.º ano, que com maior ou menor dificuldade é, regra geral, concretizado. Depois, com o aparecimento dos Politécnicos deu-se a verdadeira “democratização” do acesso ao ensino superior, em grande parte motivada pela importância económica que passou a ter para os agregados familiares terem um filho a estudar “em casa”. O processo de Bolonha encurtou o tempo necessário para alcançar o tão almejado canudo (licenciatura) e aos 21 anos temos licenciados em engenharia a sair para o mundo do trabalho. Nenhum pai quererá ter um filho pedreiro em vez de engenheiro! Há uma outra questão: havia cursos técnicos de construção civil nas antigas escolas comerciais e industriais que, entre outros, formaram profissionais de excelência para o sector da construção. Esses cursos profissionais de nível intermédio acabaram. Há um conceito profundamente errado de que quem não consegue fazer mais nada vai para as obras. A actividade de pedreiro encerra tarefas que exigem conhecimentos específicos que têm de ser previamente adquiridos. Aqueles homens, alguns com pouca instrução escolar, detêm conhecimentos espantosos relativamente a conceitos tão diversificados como operações matemáticas, comportamento de materiais, conhecimento de solos ou processos gerais construtivos.

A profissão de pedreiro é mal paga? Ou ainda é, socialmente, 'menos valorizada' do que outras profissões? O que leva os jovens a 'fugir' da área?
Um pedreiro que seja um bom profissional aufere no presente momento um vencimento claramente recompensador, acima da média salarial do País e mesmo superior a muitos licenciados. Naturalmente que a valorização social é diferente. No entanto, ela só por si não paga contas. A dignidade está em primeira linha nas próprias pessoas, nos seus actos e acções, nas suas atitudes e comportamento. Depois, não há desempenhos que não sejam dignos, honrados ou socialmente relevantes. Temos de pensar que formamos todos uma grande cadeia e os desempenhos de cada um têm de ser entendidos complementarmente. Todos somos precisos e isoladamente não atingimos coisa alguma como sociedade. Eu não sei operar uma apendicite, mas o médico não sabe construir uma casa. Nessa linha, é a própria sociedade que tem um grande percurso para fazer! Há ainda outra questão de fundo, que é a exigência física que a profissão tem. Aqui as coisas não se resolvem num quarto fechado, a “passar o dedo” pelos ecrãs. A economia 4.0 anda um bocado mais

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