DEPRESSÃO KRISTIN
Inundada e às escuras, a TJ Moldes cumpriu encomenda da Porsche com organização, frango e carne à alentejana
Reconstruir à prova de tudo
João Faustino, administrador da TJ Moldes, atravessa a rua da Indústria Metalúrgica, na Marinha Grande, em direcção aos dois edifícios mais antigos da empresa, destruídos pela tempestade Kristin, há um mês.
Na passadeira, insurge-se com os automobilistas que, em vez de pararem o contornam, desrespeitando o código e a segurança.
“Ao fim de semana, parece que vêm ver a onda da Nazaré”, diz dos visitantes que a cidade recebe para ver os estragos feitos pelos ventos ciclónicos.
A TJ Moldes foi um das empresas mais afectadas pela destruição e, passadas quatro semanas, muitos dos 112 trabalhadores – um número quase profético que coincide com o das emergências - continuam ocupados com a limpeza e demolição de estruturas danificadas ou a tentar realocar máquinas de milhões e de várias toneladas, para zonas secas onde a humidade não danifique os componentes electrónicos.
João Faustino sabe que apenas será possível fazê-lo com as de menor dimensão.
Para as maiores, o desafio é embrulhá-las em lonas e esperar pelo melhor.
As duas grandes naves destruídas por ventos na ordem dos 200 km/h representam um prejuízo directo superior a cinco milhões de euros.
O empresário sobe uma pequena rampa, atravessa portas de vidro e, no interior da TJ Aços, um cheiro forte a humidade agride-nos o nariz.
A água aproveita a ausência de telhados e cai dos tectos para o chão, infiltrando-se pelo piso até à sala dos servidores. João Faustino conta que, após a passagem da Kristin, embora destelhada aquela parte do edifício só tinha uma janela partida, contudo, por causa dela, com a passagem do Leonardo rebentaram todas.
“Kristin, Leonardo, Marta… já lhes perdi a conta!”
Apesar de tudo, a TJ Moldes vive um cenário de contrastes, onde a destruição física de infra-estruturas e maquinaria avaliadas em milhões de euros colide com a vontade férrea de manter a produção activa.
Nas últimas semanas, a resposta à catástrofe exigiu uma logística de emergência, coordenada a partir da única sala seca em toda a empresa.
Foi a partir dali, o centro nevrálgico da operação, com vista para os telhados, vedações e portões arrancados, que se organizaram os contactos, se fizeram as reuniões mais importantes e se tomaram as refeições em modo familiar, em comunhão entre administração, voluntários e colaboradores.
“Foi uma cantina democrática onde partilhávamos refeições. Uns frangos e carne de porco à alentejana, comendo em pratos de plástico no meio da confusão”, conta João Faustino.
Sem electricidade durante as primeiras semanas, a empresa recorreu a vários geradores para retomar o trabalho.
Quando “a luz”, por fim, regressou, vieram também picos que queimaram cartas electrónicas de máquinas já fustigadas pela chuva e pela humidade vinda do mar.
Além das intempéries, a TJ Moldes tem ainda de lidar com a falta de escrúpulos de alguns.
Logo no dia 28 de Janeiro foram organizados piquetes de vigilância nocturna após se verificarem tentativas de furtos e intrusão nas instalações danificadas, onde alguns indivíduos tentaram aproveitar o caos para roubar materiais e metais.
Outro obstáculo à reconstrução surge da própria dinâmica do mercado com orçamentos para novos telhados a serem até três vezes superiores ao valor real e justo, com prazos de entrega que podem chegar aos seis meses apenas para uma cobertura em telhado sanduíche.
Apesar de tudo, a remoção de “carradas e carradas de lixo”, continua e a preocupação mais urgente é a manutenção das máquinas de precisão.
“O maior prejuízo não é o visível, é o invisível nas máquinas. Se aquela corrosão não for retirada de imediato tem um efeito devastador que se vai aprofundando mais e mais”, explica o administrador.
A operar já a 80% da capacidade João Faustino explica que a empresa está já a operar a cerca de 80% da sua capacidade nas suas outras três unidades.
Foi assim que conseguiram, mesmo em cenário de catástrofe, finalizar uma encomenda que tinham da Porsche.
Não obstante, a pressão é constante. Gigantes da indústria automóvel, como a BMW realizaram visitas nas últimas semanas para monitorizar o estado dos seus moldes.
Para dar resposta, a TJ Moldes reorganizou as suas secções e deslocou pessoal das unidades paradas para as que permanecem operacionais.
Além disso, no meio da adversidade, houve espaço para o espírito de entreajuda.
Nos dias a seguir à tempestade Kristin e à medida que as depressões Leonardo e Marta se abatiam sobre o extenso território massacrado que se estende de Lisboa a Coimbra, os colaboradores da empresa que se encontravam a gozar férias do ano passado vieram ajudar.
Encharcados e sujeitos ao vento gelado removeram entulho, telhados e árvores.
Outras empresas da mesma fileira da Marinha Grande e de Oliveira de Azeméis também disponibilizaram ajuda, alguns equipamentos e até espaço físico para guardar maquinaria de grande porte.
Este e outros apoios têm sido vitais até para a subcontratação de trabalhos de injecção de plásticos e para garantir que os prazos de clientes, como a Porsche ou a Mercedes, não falham.
Reconstruir à prova de tudo
Quanto ao futuro, ainda com os contactos e orçamentos com os seguros em modo de levantamento e negociação, o caminho será de reconstrução, mas com maior exigência, até porque uma vistoria detectou pilares fissurados que obrigam à demolição e reconstrução total da área de produção das duas empresas atingidas.
Estas serão reforçadas para resistir a ventos de magnitude extrema.
“Não vamos reconstruir igual, quando há a possibilidade de este fenómeno ser recorrente. Vai ser tudo muito mais forte!”, afirma João Faustino.