Editorial

Somos todos migrantes

28 mai 2026 07:43

Ninguém, por vontade própria, muda para pior. E ninguém deve ser refém do sítio onde nasce

Se as minhas filhas recuarem uma geração, têm familiares a nascer na Alemanha, no período em que outros familiares, nascidos em Portugal, lá viveram e trabalharam. Se recuarem duas gerações, há familiares nascidos em Espanha, que se fixaram em Portugal. Podia ser caso raro, mas claro, não é, pelo contrário, porque a história das famílias que vivem em Portugal está cheia de enlaces com outros territórios, mesmo no tempo em que as fronteiras se venciam a salto.

Segundo o Pordata, desde que há registos os anos em que mais portugueses emigraram são 1966 (ditadura e guerra em África) e 2014 (austeridade e intervenção da troika). Os dados mais recentes do Observatório da Emigração e do Instituto Nacional de Estatística mostram que ainda saem entre 65 mil e 80 mil emigrantes por ano de Portugal para o estrangeiro, de forma temporária ou permanente.

Por outro lado, de acordo com a AIMA, em 2024 havia 1.543.697 estrangeiros a residir em Portugal, quase quatro vezes o total de imigrantes registado em 2017, mas, ainda assim, abaixo das estimativas do Observatório da Emigração para o número de emigrantes portugueses, ou seja, pessoas com nacionalidade portuguesa a residir no estrangeiro, que, também em 2024, eram 1.799.179.

A maior fatia dos imigrantes em Portugal, Espanha e Inglaterra chega, respectivamente, do Brasil, de Marrocos e da Índia. O oceano que levou para lá é o mesmo que traz para cá, como um eco do passado colonial.

Não há especial mérito na nacionalidade que exibimos no passaporte. Não se escolhe a hora nem o lugar para vir ao mundo. Alguns calha sair-lhes na rifa a cidadania em democracias que procuram justiça social, inovação, progresso e qualidade de vida, outros vêem-se cercados por corrupção, conflitos militares, miséria e desemprego, como quem joga Monopólio e recebe a carta “vá para a prisão”. O contexto explica o movimento de procurar alternativas longe da origem.

Ninguém, por vontade própria, muda para pior. E ninguém deve ser refém do sítio onde nasce. Na realidade, partilhamos a mesma árvore genealógica: se andarmos para trás, somos todos migrantes.