Economia

Full Stack da Startup Leiria faz tudo, de A a Z, num raio de 100 quilómetros

31 dez 2025 18:30

A Startup Leiria é o 3.º maior ecossistema de inovação nacional, com mais de 180 empresas incubadas. Potencia as características Full Stack Valley da região, capazes de desenvolver produtos completos num raio de 100 km, mas enfrenta falta de espaço para crescer

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"Leiria fica na área de influência da capital, a uma 1:15 horas de Lisboa e 1:30 horas do Porto"
Fotografia: Ricardo Graça
Jacinto Silva Duro

Com mais de 180 empresas incubadas, cerca de 70 fisicamente e as restantes digitalmente, a Startup Leiria é apontada como um dos ecossistemas de inovação mais dinâmicos do País.

Classificada, em 2024, pelo ranking Global Startup Ecosystem Index, da StartupBlink, como o terceiro melhor ecossistema nacional, a incubadora ocupa também o lugar 450.º à escala mundial.

“Em termos de dimensão, situa-se apenas atrás das startups de Porto, Lisboa, do Instituto Pedro Nunes, de Coimbra, e em posição ex aequo com a Startup Braga. Estamos entre as cinco maiores”, afirma Vítor Ferreira, director-geral da Startup Leiria.

Sediada no antigo Mercado Municipal de Leiria, a instituição funciona como incubadora e aceleradora de empresas, fornecendo o ambiente, as ferramentas e os contactos necessários para que uma ideia de negócio, mesmo em fase embrionária, se transforme num negócio sólido e sustentável.

Para isso, aplica programas estruturados de pré-incubação, incubação e aceleração.

Ao longo do percurso, a Startup Leiria acompanha os empreendedores, desde a validação da ideia até à internacionalização, oferecendo mentoria especializada, acesso a financiamento e acesso a investidores e ao tecido empresarial da região.

Full Stack Valley ou como criar na região e exportar para o mundo

A expressão Full Stack Valley resume a maior vantagem competitiva da região de Leiria.

“‘Roubámos ‘a expressão full stack da área do software. O termo denomina algo ou alguém que tem conhecimento ou acesso a todas as linguagens de programação, do frontend ao backend. Consegue oferecer tudo. Na Startup Leiria, ‘roubámos’ essa ideia, porque temos a certeza de que a região alargada de Leiria tem a capacidade de poder desenvolver integralmente produtos e serviços em qualquer área dos sectores primário, secundário e terciário”, explica Vítor Ferreira.

Talvez o exemplo mais reconhecido desta capacidade seja o da Bhout, startup portuguesa que desenvolveu um saco de boxe com inteligência artificial.

A empresa, que recebeu dez milhões de euros numa ronda de investimento seed em Novembro de 2023, numa operação considerada como uma das maiores alguma vez levantadas em Portugal, tem a sede na Startup Leiria, embora os ginásios com a sua marca tenham sido instalados em Lisboa e noutros pontos geográficos.

“Os algoritmos e o Computer Vision Software foram essencialmente desenvolvidos pela Void, uma tecnológica de Leiria. A espuma que enche o saco é produzida pela Leirispumas, o couro vegano vem também de uma empresa da região, tal como os sensores, as partes de plástico e os moldes. A metalomecânica é feita aqui e uma parte das máquinas que estão a equipar a nova fábrica da Bhout em Leiria estão a ser feitas pela Dommify”, ilustra.

A Dommify - Nextgen Technologies é uma empresa de soluções inovadoras de automação e robótica no âmbito da indústria 4.0, que também faz parte do ecossistema.

“Conseguimos produzir algo tão complexo como o saco de boxe da Bhout e temos tudo o que necessitamos de A a Z. Vem tudo da própria região num raio de 100 quilómetros. Podemos sonhar um produto, desenvolvê-lo, criá-lo, exportá-lo para todo o mundo e recorrer a fornecedores e a parceiros num raio de 100 quilómetros”, garante Vítor Ferreira.

Esta capacidade estende-se a outras fileiras económicas.

“Temos empresas nas áreas da fruta, da agricultura, da criação de animais, do vidro, do plástico e vemos que muitas delas se estão a transformar, e já incluem drones ou software IoT, como faz a Brainr, para a produção alimentar. É possível em qualquer um destes ramos de económicos irmos buscar as soluções necessárias dentro da região”, acrescenta o responsável.

“Já fazemos muita coisa, com cada vez mais engenharia avançada e temos empresas que ajudam outras a desenvolver as soluções que necessitam neste território.”

Empreendedorismo de impacto e economia social

A Startup Leiria lançou recentemente a Academy for Impact, um centro de empreendedorismo de impacto financiado pelo Portugal Inovação Social.

O programa visa conectar conhecimento que não é aproveitado - como programas europeus que geraram conhecimento, patentes ou investigações académicas no Politécnico de Leiria - com empreendedores sociais para resolver problemas concretos.

“Estamos a procurar o que existe e depois vamos cruzá-lo com empreendedores sociais e tentar usar esse conhecimento para resolver problemas. O nosso primeiro programa de aceleração acaba em Janeiro e temos muitas pessoas interessadas. Dentro da Startup Leiria, a área de impacto tem muita relevância”, diz o responsável.

O plano passa por criar startups de impacto com modelos de negócio sustentáveis, que não dependam exclusivamente de financiamento público.

“Embora tenhamos o objectivo de ter mais startups de impacto, com modelos de negócios sustentáveis, que não dependam de financiamento público e que tenham modelos de negócio que podem ser for-profit e auto-sustentáveis, estamos, no fundo, a treinar as pessoas e a capacitá-las para que isso possa acontecer”, adianta.

“Precisamos de aliar o impacto à sustentabilidade financeira. Não podemos esquecer que a Vinted e outras desse género são for-profit e empresas de impacto, com modelos de negócio super resilientes e de crescimento.”

Chamamento da região

A localização estratégica de Leiria e a qualidade de vida são razões para fixação de empreendedores e empresas.

“Estamos a falar de uma mancha de óleo de inovação e investimento que se está a espalhar para o norte de Lisboa, rumo a Leiria, constituída por investidores e stakeholders que querem explorar a qualidade de vida, a centralidade e o talento”, observa Vítor Ferreira.

Embora a habitação comece a ser cara em Leiria, ainda não está aos níveis de Lisboa, recorda o responsável.

Além disso, existe uma vantagem fiscal em estar fora da capital, na majoração dos fundos nacionais do PT 2030.

“Leiria fica na área de influência da capital, a uma 1:15 horas de Lisboa e 1:30 horas do Porto. Com a linha ferroviária de alta velocidade (LAV) será melhor ainda. Todas as cidades que estão no eixo da LAV vão ter um impacto altamente positivo.”

Neste momento, a região já atrai profissionais que trabalham remotamente para empresas de Lisboa.

“Temos incubados e pessoas que fazem parte de empresas de Lisboa, e rodam entre o nosso cowork e o teletrabalho. Quando há um meeting em Lisboa, poderão, no futuro, apanhar o comboio”, exemplifica Vítor Ferreira.

Falta de espaço limita crescimento

O sucesso da Startup Leiria trouxe, paradoxalmente, a sobrelotação, que impede o acolhimento de novas iniciativas empresariais.

“Precisamos de mais espaço. Estamos completamente lotados. Já temos uma lista de espera bastante grande e as pessoas cansam-se de esperar e desistem”, revela o director-geral.

“Isso inibe os nossos esforços de atracção de startups de outras geografias para Leiria, porque não temos espaço para as alojar.”

A curto prazo, a solução passa pela negociação com a Câmara Municipal de Leiria para expansão ao piso superior do edifício do lado, também do antigo mercado municipal, onde funcionava o antigo Centro Associativo Municipal.

“É uma conversa que estamos a ter há alguns meses com a autarquia, vamos ver como resulta. Isto seria uma solução interessante porque nos daria mais 900 metros quadrados, em apenas 6 a 8 meses de obra. Seria relativamente rápido”, acredita Vítor Ferreira.

A longo prazo, a ambição é maior. “Temos uma lógica orgânica dentro da própria cidade, mas tudo relativamente próximo, em termos geográficos.

Uma espécie de um grande campus na área onde se localiza a Startup Leiria e o topo norte do Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa.”

A expansão é vista como crucial para manter a capacidade de captação de empresas.

“Um novo espaço agilizaria o processo de incubação e traria mais startups e mais inovação para a região de Leiria. No fundo, estamos a falar de uma mancha de óleo de inovação e investimento que se está a espalhar desde a zona norte de Lisboa até Leiria e Pombal”, descreve.

Como a Startup Leiria ajuda a montar novas startups

O processo de transformar uma ideia em negócio passa por três fases distintas, cada uma com metas e ferramentas específicas. Na fase de pré-incubação, os empreendedores são ajudados a validar a ideia, a definir o problema que pretendem resolver e a identificar o mercado, através da criação do modelo de negócio.

Segue-se a incubação, onde a equipa é apoiada na formalização da empresa, desenvolvimento do Produto Mínimo Viável (MPV) e na criação da primeira estratégia de entrada no mercado.

Finalmente, a aceleração foca-se em startups que já têm produto e clientes, mas precisam de escalar rapidamente, com crescimento de vendas e internacionalização.

A mentoria é um dos pilares fundamentais deste processo.

A Startup Leiria coloca os empreendedores em contacto com uma rede de mentores, constituída por empresários, investidores e especialistas de diversas áreas, que oferecem orientação estratégica e aconselhamento em finanças, questões legais, marketing, vendas e desenvolvimento tecnológico.

O acesso a financiamento é outro elemento essencial.

A incubadora prepara as startups para angariar investimento através de treino intensivo para apresentações a investidores (pitches), a conexão com business angels e fundos de capital de risco, como a Portugal Ventures ou fundos regionais, e apoio em candidaturas a programas de apoio e fundos comunitários.

A Startup Leiria promove ainda eventos, oficinas e sessões de networking, permitindo que os empreendedores troquem experiências e criem parcerias, facilitando a ligação das novas startups ao tecido empresarial mais consolidado da região e a parceiros estratégicos.

Em termos de infraestrutura, fornece escritórios privados ou espaços de coworking com acesso a serviços administrativos, salas de reunião e laboratórios, em parceria com outras entidades como o Politécnico de Leiria, ajudando a reduzir os custos iniciais das empresas nascentes.