Viver

É Verão e está na hora de meter as leituras de praia em dia

19 jul 2018 00:00

Listas | Romances, poesia, contos, pensamentos, banda desenhada ou compilações variadas. Poucas coisas há que nos façam sentir que chegou a época de estar a banhos, como o cheiro da tinta de um bom livro, misturado com maresia e protector solar.

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Jacinto Silva Duro

O País está prestes a entrar oficialmente na época de funcionamento a meio gás, com meio mundo a mudar-se para a borda do Atlântico, com o fito de se demorar a olhar o azul profundo e o ouro puro da areia, deitado na toalha de praia, que mais parece um íman capaz de atrair até a mais pequena partícula de sedimento.

É assim, todos os anos, sempre que o perene calendário, desfolha páginas e dobra a metade do mês de Julho.

Os dias compridos e quentes de praia – embora um pouco fugidios na região, este ano – convidam a emalar a trouxa e zarpar, com toalhas, fatos de banho, protectores solares de variados factores de eficácia -, bolas, baralhos de cartas -, chinelos de enfiar no dedo grande do pé que, garantidamente, até ao fim da época estival, vão rebentar, deixando a sola a rasar a areia como se fosse uma comprida língua canina, e, por fim, vários livros.

Dando largas ao sportinguista clandestino que há dentro de nós, este ano é que é e vamos lê-los todos, porque a esperança, entre uma sesta e um banho de mar ou outro, é sempre a última a perecer.

O mais complicado, por norma, é a árdua tarefa de selecção dos títulos verdadeiramente importantes que não podem estar ausentes do nosso lado, quando estivermos estendidos no quente areal a tentar recuperar da hipotérmica água do Atlântico que banha a nossa costa.

Para nos ajudar na importante tarefa de escolher os melhores títulos para enfiar no fundo da bagagem, convidámos gente que gosta de ler e que já tem muitos anos de experiência de praia a ler livros, evitando bolas na cabeça e areia no protector solar.

André Pereira é um homem das letras, guionista e dono de um sentido de humor mordaz que, por vezes, nos magoa a epiderme, de tão certeiras e sem falsas preocupações do politicamente correcto que são as suas opiniões, já Susana Neves, é uma leitora ávida que jamais julgou um livro pela capa e que, enquanto chefe de loja da Livraria Arquivo, de Leiria, é raro o dia em que não lhe passam pelas mãos obras literárias de qualidade inquestionável.

Carla Bernardino é uma jornalista natural de Leiria que, em quase 20 anos de carreira, já conheceu praticamente todas as principais figuras públicas nacionais da política, da televisão, da arte, letras e cultura.

Humberto Pinto é o presidente da Direcção do Teatro Amador de Pombal, amante BD e um dos mais cultos e atentos homens da cultura naquele concelho e Pedro Durão, natural de Porto de Mós é um dos mais promissores humoristas nacionais da nova geração.

Anita (Ana Luísa Costa), filha de Leiria, é uma das mais talentosas humoristas nacionais - “Se der para contextualizar, ponham que sou a Avé Anita Cheia de Graça, em algum lado, está bem?” Está! -, o standup e os palcos são, literalmente, a sua praia.

Helena Rafael é uma das faces da equipa que constitui a conhecida editora Gradiva.Pelas suas mãos passam alguns dos mais conceituados bestsellers do ano e muitos outros títulos que apenas são apreciados pelo público mais conhecedor.

Algumas das sugestões são novidades, outras, são livros antigos lidos e relidos, que encontram sempre o caminho para uma recomendação, mas todas servem para ajudar a matar o “bichinho dos livros”.

 

Sugestões literárias para o Verão

 

André Pereira, guionista
Nos últimos dois meses, trouxe para casa 37 livros. Para bem da minha sanidade, apenas estou a ler três em simultâneo: Lolita, do Nabokov, é uma obra de amor que dança no fio da navalha, bem na vertigem do nojo e do poético. Rugas, de Paco Roca, é uma banda desenhada sobre a vida bonita e decadente, portanto real, de velhos que navegam entre as memórias e a morte. Prometo Amar, do Pedro Chagas Freitas. Leio-o sempre que estou mal do estômago e preciso de vomitar. Os cães comem erva, eu leio isto. Ou qualquer outra erva deste escritor - são livros que me fazem questionar. Especialmente, Darwin.

 

Anita, humorista
Assumindo que não se trata de uma praia paradisíaca com isolamento e silêncio, por norma, opto por uma leitura mais leve, sob a forma de livros de contos. Trágicos e cruéis. Acabei de ler Contos de Amor, Loucura e Morte, de Horacio Quiroga. Aconselho. A nossa pele fica exposta à decadência e loucura. Dá vontade de fazer mal às pessoas que nos incomodam. No Verão passado, li O Festim da Aranha – Histórias em estado de crueldade encontradas e traduzidas por Aníbal Fernandes. Li nua no Meco. Aconselho. As duas coisas. Pensamento de Verão: “a crueldade tem coração humano” - William Blake.

 

 

 

 

Helena Rafael, assessora de imprensa

Como estar de férias implica ganhar tempo, opto por ler no Verão livros que me conduzem à reflexão e escolho geralmente ensaios. A Expulsão do Outro, de Byung- Chul Han. Breve e acutilante ensaio do filósofo sul-coreano, cuja obra acompanho assiduamente. Cerca de 100 páginas sobre a ameaça que os dias nos colocam ao expulsar o diferente, ao anular o mistério do outro, dando origem a sociedades onde nos aproximamos do semelhante e de como isso pode ter implicações económicas, políticas, sociológicas e até psicológicas. Onde Cresce o Perigo Surge Também a Salvação, Hubert Reeves. Da autoria do astrofísico conhecido como o “poeta das estrelas”, este livro, que tem por título um verso de Hölderlin, é uma declaração de amor ao planeta que nos alberga e um alerta para o que as alterações climáticas, o desequilíbrio na biodiversidade e a extinção das espécies nos anunciam em termos de sobrevivência futura. Lê-lo em férias onde o retorno à natureza, regra geral, acontece, é sempre reavivar a responsabilidade que temos no domínio da salvação ainda possível.


Carla Bernardino, jornalista
Férias da escola, quem disse? Em tempo de férias, nada como regressar às aulas. Falamos de provocação e estes dois livros garantem-no, embora com efeitos totalmente diferentes. Em Nada, a dinamarquesa Janne Teller coloca o comportamento humano ao microscópio, aplicalhe a lógica, adiciona-lhe insatisfação e põe o leitor em assombro com o que um grupo de jovens adolescentes consegue fazer com um... “nada”. História de Portugal em Disparates conta as melhores pérolas dos alunos em testes. Da Pré-História à actualidade, há piadas – e espanto – para tudo e para todos.

 

Pedro Durão, humorista
Por norma, sou contra o aconselhamento de obras de literatura a terceiros, uma vez que essa prática, como sabemos, pode desaguar comigo eleito Presidente da República e não tenho muito vagar para selfies. Mas o JORNAL DE LEIRIA acordou que me pagava as férias caso desse duas sugestões. Aproveito para recomendar o Retrato de Dorian Gray e O Último Macho Man Português. Um é sobre um rapaz muito belo que tem de lidar com os desvios de consciência que o desejo, prazer e existencialismo trazem, representa a luxúria da Inglaterra victoriana. E o outro é o Retrato de Dorian Gray.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Humberto Pinto, presidente da Direcção do Teatro Amador de Pombal
Aproveitando a passagem de André Diniz (Brasil) e Osvaldo Medina (Portugal), argumentistas e ilustradores de banda desenhada, pela Praça das Letras, em Pombal, sugiro a leitura do primeiro livro editado em Portugal pelo André Diniz, Morro da Favela. Ele utiliza um traço simples que faz lembrar a cultura africana para contar a história de Maurício Hora, fotógrafo autodidacta. Do Osvaldo, sugiro o Kong the King, premiado na ComicCon (2016), o seu primeiro livro a solo, onde, sem uma única palavra, traça novos caminhos ao velhinho King Kong.

Susana Neves, chefe de loja na Livraria Arquivo
Isabel Lucas viajou durante um ano pela América. O ponto de partida para o livro Viagem ao Sonho Americano foi a literatura em toda a sua diversidade, ambiguidade e singularidade. Este é um imenso olhar sobre um país através dos seus escritores. Um olhar que junta a imensidão das possibilidades infinitas do sonho americano a uma desigualdade social abissal. Afinal, o que é o sonho americano? Em Vem à Quinta-Feira, Filipa Leal escreve sobre os sobressaltos do quotidiano num tom melancólico. É uma cartógrafa de emoções com um leve toque de ironia à mistura.

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