Abertura

E eis que a pandemia deixou o meu Agosto menos querido

13 ago 2020 10:40

É com tristeza que muitos empresários olham para Agosto. Período habitual de casamentos, de romarias e diversão, o mês fica este ano marcado pela travagem brusca dos negócios, paralisados à custa da Covid-19

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Sem festas e arraiais, são muitas as empresas sem possibilidade de laborar
Ricardo Graça/Arquivo
Daniela Franco Sousa

Agosto que é Agosto, ou pelo menos Agosto até à chegada da pandemia, sempre foi mês de festa. Período de férias por excelência, Agosto era tempo de arraiais e de romarias, com direito a fogos de artifício e carrosséis. Era tempo de reunir a família e selar romances com casamentos. Era tempo de noites longas entre amigos, nos bares e nas discotecas.

Era. A chegada da Covid-19 mudou as regras do jogo e são muitos os sectores que hoje vêem a sua actividade parada ou quase parada. Nalguns casos é a lei que determina a suspensão, já noutros, contam os empresários, é o medo, a falta de clareza da legislação ou a falta de conhecimento do público que estão a paralisar os sectores.

Casamentos cancelados ou adiados

Pelas contas da BestEvents (empresa responsável pela organização de feiras nacionais e internacionais dedicadas ao casamento) e da revista I Love Brides, foram adiados ou cancelados mais de 30 mil casamentos em Portugal por causa da pandemia do novo coronavírus, de um total de 33.372 que estavam marcados para 2020. Adicionalmente, mais de metade das empresas do sector prevê perdas de facturação superiores a 70% este ano, concluíram as responsáveis pelo estudo citado pela NiT.

Num comunicado que intitularam de O Ano Horribilis dos Casamentos, estas entidades falam de um momento de “grande incerteza” para a esta indústria, que movimenta 4 mil milhões de euros por ano. Os dados foram recolhidos entre os dias 22 e 30 de Junho, junto de 231 empresas do sector, que revelaram uma taxa de cancelamentos e/ou adiamentos de 91%.

Quanto à facturação, mais de metade das empresas inquiridas prevê perdas superiores a 70%. Pedem, por isso, medidas de retoma urgentes, nomeadamente o prolongamento do lay off simplificado para o sector dos eventos até ao final do ano. Sugerem também o apoio à redução de custos fixos e dos custos energéticos, através de linhas de crédito específicas e apoios para a adaptação dos seus modelos de negócio no âmbito da Covid-19, expõem as promotoras do estudo.

A trabalhar no negócio dos casamentos há 35 anos, também Rosa Santos fala ao JORNAL DE LEIRIA do período mais negro de sempre da sua actividade. A gerente da loja Slim Noivas, de Leiria, dedica-se ao comércio de fatos de noiva, de noivo e de cerimónia, e revela que a quebra no sector é grande e transversal aos vários países, sendo que vários fornecedores seus, de marcas estrangeiras, se estão a bater também com dificuldades.

“Nem as famílias estão a aceitar os convites de casamento, por medo de possível contágio”, salienta a comerciante, que contabiliza uma quebra no seu negócio na ordem dos 60%. Não é apenas Agosto. “É um ano todo perdido”, constata Rosa Santos, que, atendendo ao número de casamentos adiados, deposita agora as suas melhores expectativas em 2021. “Que seja um ano de muito trabalho”, deseja a empresária.

Confiante de que possa trabalhar melhor no próximo ano está também Fernando Cardoso, responsável pela Quinta do Paul, que viu o ramo dos casamentos cair cerca de 90%. “Temos puxado por outros serviços, mas não chega para compensar”, salienta Fernando Cardoso. “As pessoas estão a assinalar o casamento com uma reunião de 15 a 20 pessoas e a adiar a grande festa para o ano que vem”, explica o responsável pela quinta localizada na Ortigosa, em Leiria.

O proprietário do espaço dá-se mesmo assim por satisfeito por ter conseguido manter a estrutura do espaço, bem como a sua equipa de 24 colaboradores.

A situação foi diferente para Joana Conde e Alexandra Conde, responsáveis pela empresa Iguarias do Tempo, empresa que se dedica ao catering de eventos em casamentos, aniversários, baptizados e iniciativas de empresas. O negócio ressentiu- se e a equipa de 13 pessoas teve de ser reduzida, lamenta Joana Conde.

“Entre Março e o início de Agosto fizemos um casamento, há três semanas, e que foi um casamento mais pequeno do que o normal. Vamos ter mais dois em Agosto e em Setembro e Outubro, ainda vamos ver”, relata Joana Conde. “Estou também a fazer o segundo evento na casa de um cliente póspandemia”, acrescenta a empresária, frisando que tinha cerca de uma centena de casamentos agendada para este ano. Joana Conde lamenta a falta de informação que se mantém em torno desta actividade. Salienta que os casamentos já se podem realizar com grupos grandes, o que apenas pressupõe gestos idênticos àqueles que as pessoas já estão a praticar nos restaurantes.

As quintas apenas têm de reduzir a lotação, cuidar para que as mesas estejam colocadas a distâncias seguras, assegurar a desinfecção, sendo que, além dos funcionários dos espaços, também os convidados devem utilizar máscara, mas nas mesmas condições em que as utilizam noutros estabelecimentos de restauração.

O problema é que muitas pessoas continuam a julgar que as cerimónias se cingem ao limite de 20 pessoas, lamenta a empresária. Enquanto isso, as empresas do sector “mantêm custos gigantescos e facturam zero”, conta, revoltada, a empresária de Leiria.

Sem arraiais, não há carrosséis nem fogos de artifício

Com as festas e as romarias canceladas pelo menos até ao fim de Setembro, são muitos os negócios que este Verão vivem tempos de muita agonia. Os proprietários de divertimentos itinerantes, bem como os fabricantes de fogos de artifício, fazem parte deste grupo de empresários que está a tentar sobreviver à paragem imposta pela pandemia.

Luís Fernandes, que dirige a Associação de Profissionais Itinerantes Certificados, sediada em Pedrógão Grande, recorda que, depois de se manifestarem em Lisboa, os empresários do sector conseguiram que a sua situação fosse analisada e que a sua actividade pudesse retomar, em meados de Julho. “Mas sucede que as festas e romarias estão canceladas até 30 de Setembro, sem que haja perspectivas da data em que possam retomar. E já há organizações de festas que estão a cancelar os eventos de Outubro”, expõe o presidente da associação.

Surgiram entretanto algumas iniciativas dos próprios empresários do sector, na tentativa de fazer mexer o negócio, mas são pequenos exemplos, nada com grande expressão, explica Luís Fernandes. “Na Figueira da Foz, os empresários reuniram-se e, com lotação condicionada, devida desinfecção, cuidado com zonas de entrada e saída do público, foi possível colocar dez famílias a trabalhar”, refere o presidente. O mesmo aconteceu em Lagos, onde seis empresários do sector conseguiram laborar num parque por eles criado, acrescenta Luís Fernandes.

Com todas as autarquias do País a cancelar os seus eventos públicos, a Câmara de Viseu é uma excepção, pois conseguiu criar uma alternativa à Feira de São Mateus, com a redução de equipamentos no recinto e criação de cinema ao ar livre, exemplifica o presidente da associação.

Mas, no total, continua a ser muito pequena a percentagem de pessoas que se mantém no activo. Talvez 10%, estima Luís Fernandes. Só da sua associação fazem parte 250 empresas de Norte a Sul do País, mas são bem mais aquelas que trabalham no sector, expõe o presidente, para quem 20% a 25% já terão desistido de laborar este ano. “Muitos estão em lay-off, outros começaram a trabalhar noutros ramos de actividade. Agora veremos se conseguirão retomar ou não no ano que vem”, nota Luís Fernandes. “As pessoas não estão a gastar nos divertimentos. Têm mais medo do agravamento das dificuldades económicas do que medo do contágio propriamente dito”, considera o presidente.

João Martins, gerente da Fábrica de Fogos de Artifício do Bombarral, é a única pessoa presente naquela unidade, já que todos os outros 11 colaboradores se encontram em casa, em lay-off. Inaugurada em 1934, a empresa nunca passou por um período tão RICARDO GRAÇA/ARQUIVO mau quanto este. João Martins explica que todas as festas no País foram canceladas, desde a Páscoa, passando pelo 25 de Abril, os santos populares, os arraiais e os festivais de música.

O mesmo aconteceu com as suas exportações, sendo que alguns dos seus clientes estrangeiros até já entraram em insolvência, nota o empres&aacu

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