DEPRESSÃO KRISTIN
Abrigam mercadoria e assumem produção para ajudar empresas em dificuldades
O momento de fragilidade é também o momento que traz à tona o espírito de entreajuda entre as empresas. Há quem empreste máquinas, abrigue stocks e assuma a produção dos vizinhos, para não perderem negócios
Num quadro difícil, com inúmeras indústrias duramente afectadas pela passagem da tempestade, há empresários que se voluntariam para ajudar aqueles que a intempérie mais fustigou. Há quem empreste as suas máquinas, disponibilize armazéns para abrigar mercadoria e até assuma a produção das outras empresas, na tentativa de que os colegas não percam os seus negócios.
“Temos de ser uns para os outros”, conta Diogo Alexandre, um dos administradores da Lismolde, empresa familiar, dedicada à produção de moldes e de pequenas séries de injecção de peças plásticas, sediada em Porto de Mós. “A nossa empresa não foi muito afectada. Ficámos com alguns danos nas infra-estruturas, ficámos sem electricidade durante algum tempo, mas acabou por ser reposta”, explica o administrador.
“Contactámos logo a Cefamol (Associação Nacional da Indústria de Moldes) para saber quem poderia precisar de ajuda”, refere. Com muita área de armazenamento, a Lismolde disponibilizou espaço para quem precisa de guardar as suas mercadorias e até para quem precisa de guardar telhas, explica o responsável. Gratuitamente, nota Diogo Alexandre.
Aceitou também prestar serviços de fresagem e de maquinação de moldes a uma empresa com a qual já não trabalhavam há cerca de dez anos. “Não houve tempo para fazer orçamento, nem nada”, explica o empresário. Pois a urgência foi permitir que essa indústria, bastante prejudicada pelo temporal, não perdesse o seu negócio.
“Os clientes deles são do ramo automóvel, que requer competência”. Por isso, precisavam de alguém com quem já tivessem trabalhado e que lhes transmitisse “confiança”.
Com o mesmo intuito, de prestar ajuda a quem está numa situação complicada, “ainda hoje fomos contactados por outra empresa na área da injecção”, adianta o administrador. “Nós tivemos alguns estragos na cobertura, resultado da queda do telhado do pavilhão de outra empresa, que voou para cima do nosso. E estivemos sete ou oito dias sem luz. Não conseguíamos trabalhar com a rede interna, com o sistema de facturação, de orçamentação, etc.”, conta Pedro Oliveira, sócio-gerente da DIB4T, da Marinha Grande. "Mas percebemos que há quem esteja bem pior", conta o empresário, apontando para a empresa vizinha, a Ardavi, que perdeu a cobertura por completo.
“Temos de dar as mãos uns aos outros. Se fosse comigo, também iria gostar que o vizinho do lado me ajudasse”, afirma Pedro Oliveira. À Ardavi, especializada na prestação de serviços para a indústria de moldes, a DIB4T ofereceu toda a ajuda em matéria de logística e de contactos, explica Pedro.
“Temos todo o apoio da vizinhança”, confirma Hugo Simões, sócio-gerente da Ardavi, que, sem telhado e com produção totalmente paralisada, realça a importância de ter empresas solidárias neste período. Não só as da vizinhança, como clientes e fornecedores. E a entreajuda não é novidade, asseguram os empresários. “Muitas vezes preciso de cortar blocos de grandes dimensões e eles têm essas ferramentas e cortam. Quando eles têm problemas de parte eléctrica e electrotécnica, também recorrem a nós e resolvemos”, lembra o sócio -gerente da DIB4T.
Já depois da tempestade, a empresa de Pedro Oliveira deu acrílico a outra indústria vizinha. “Precisas, serve-te!” Pouco depois, quando a DIB4T precisou de ajuda com um empilhador, também sentiu essa boa-vontade da da parte dos empresários do lado.
Bolsa de disponibilidade Mais de 30 empresas solidárias
São mais de três dezenas as empresas que já se inscreveram na Bolsa da Disponibilidade, plataforma criada pela Cefamol (Associação Nacional da Indústria de Moldes). A iniciativa pretende “apoiar empresas de moldes e plásticos que enfrentam constrangimentos operacionais, criando uma ponte entre empresas com limitações operacionais e aquelas que dispõem de meios para apoiar a produção de terceiros”.
Manuel Oliveira, secretário-geral da Cefamol, explica que, uma vez criada esta plataforma, as empresas contactam-se, baseando-se também no Bolsa de disponibilidade Mais de 30 empresas solidárias histórico de “confiança” que vêm tecendo ao longo de anos. É uma plataforma que visa apoiar as empresas de moldes e plásticos, sejam elas associadas ou não da Cefamol.
Entre as instituições disponíveis para ajudar estão empresas de vários pontos do País, como a Simoldes, de Oliveira de Azeméis. O grupo já recebeu vários contactos, mas, felizmente, as indústrias com prejuízos conseguiram encontrar soluções numa área geográfica mais próxima, refere Carlos Seabra, director comercial da Simoldes. Ainda assim, o grupo do norte reitera a sua disponibilidade para ajudar