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A Porta: um concerto de 24 horas e uma festa do tamanho do mundo

13 jun 2019 00:00

O festival ocupa Leiria durante 10 dias com artes, música e actividades para toda a família.

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E está aí, em Leiria, a edição cinco do Festival A Porta, que em ambiente de festa ambiciona condensar entre dois fins-de-semana todos os sonhos de um ano. Abertura oficial, esta sexta-feira, 14 de Junho, com a inauguração, às 19 horas, da exposição colectiva Nada Muda de Forma Como as Nuvens, a Não Ser os Rochedos. 

Trinta minutos mais tarde, também na Casa Plástica, ou seja, o edifício amarelo na Rua de Tomar, antigas instalações da EDP, começa a experiência sonora que os First Breath After Coma vão protagonizar e proporcionar, ao vivo, durante 24 horas consecutivas. A versão long play do que habitualmente acontece na sala de trabalho da banda, que ensaia no espaço cultural Serra, na Reixida, a 10 quilómetros de Leiria. Com os mesmos equipamentos, dispostos de modo semelhante, mas, sobretudo, com o mesmo espírito e método. 

“O nosso processo de composição é improvisar e a ideia é levar esse processo ao limite”, explica Rui Gaspar ao JORNAL DE LEIRIA. 

Como tantas vezes sucede nos ensaios, vão começar do zero, da folha em branco, sem caminhos predefinidos, muito provavelmente rodar pelos diferentes instrumentos, dialogar, gravar e não necessariamente tocar ao mesmo tempo. Os cinco músicos desafiam assim a fronteira do que é um concerto para invadirem o território da instalação e da performance. 

Para o público, é o mais parecido que há com estar num ensaio de First Breath After Coma, a observar, em primeira mão, o embrião de novos temas. “Vamos improvisar durante 24 horas, provavelmente, durante essas 24 horas, podem aparecer ideias que depois vamos desenvolver. Ou, se calhar, não aparece nenhuma”. 

É justamente o carácter imprevisível da maratona a decorrer entre as 19:30 horas de sexta-feira e as 19:30 horas de sábado (14 e 15 de Junho) que mais entusiasma os First Breath After Coma. As possibilidades criativas que têm pela frente e o facto de se colocarem à mercê do inesperado. O objectivo existia “há dois ou três anos” e agora que finalmente se materializa permite-lhes testar a criatividade num contexto contaminado pela exaustão física. “Inevitavelmente”, aponta Rui Gaspar, “a música vai ser influenciada por isso”. 

Música sem fronteiras. Outro momento especial, desenvolvido por encomenda para o Festival A Porta, no âmbito de uma residência artística, é a peça de percussão Silvar, concebida pelo baterista Ricardo Martins, a ser executada em palco com baterias, idiofones e a colaboração de músicos de Leiria e Marinha Grande (Pedro Marques, Vasco Silva, Filipe Rocha, José Carlos, António Casal e Tiago Veloso), na mesma noite em que o bilhete dá acesso, ainda, aos espectáculos de Manel Cruz e JP Simões. A meio da semana, quarta-feira, 19 de Junho, no Teatro José Lúcio da Silva. 

E há um festival dentro do festival, com a charmosa Villa Portela a transformar-se em Villa Omnichord, depois das 17 horas de quinta-feira, 20 de Junho. Seis concertos ligados à Omnichord Records, de Leiria, incluindo Surma, que se apresenta com Joana Guerra e João Hasselberg, La Baq, Whales, Obaa Sima (os três últimos com elementos dos First Breath After Coma), Jerónimo e Few Fingers. 

Hugo Ferreira, responsável pelo Omnichord Records, fala do “desejo antigo” de “juntar os projectos mais activos” da editora, numa manifestação em família, e na cidade de origem, que promete roupagens “diferentes” para canções já conhecidas. E também “material novo”, a antecipar futuros singles. Três palcos, a aproveitar ao máximo o enquadramento mágico da propriedade e do chalê, mandado construir no final do século XIX. 

Ainda na secção dedicada à música, o cartaz viaja pelo planeta sem amarras nem preconceitos, como um barco pirata à procura de tesouros. A Porta é celebração e tem sonoridades a condizer, com quase duas dezenas de nomes internacionais, da pop de Jonathan Bree (Nova Zelândia), com mais de 11 milhões de visualizações no YouTube para o single So Cool, ao rock experimental dos The Physics House Band (Inglaterra), com boas críticas nos jornais britânicos The Guardian e The Independent, do funaná de Julinho da Concertina (Cabo Verde) ao folclore inovador e extravagante dos Venga Venga (Brasil), da disco hipnótica dos KX- P (Finlândia) ao rock tuaregue de Mdou Moctar (Níger), que traz o álbum Ilana (The Creator), nota 8 em 10 para a Pitchfork, dos ritmos electrónicos e afro-caribenhos dos The Mauskovic Dance Band (Holanda) ao show com nudes de Meneo (Guatemala), que a versão espanhola da Rolling Stone descreve como tropicalismo punk. 

Mas há mais gente de fora para descobrir: Slift (França), La Jungle (Bélgica), Claiana (Cabo Verde), Phoenician Drive (Bélgica), Captain Casablanca (Dinamarca), Fun Fun Funeral (França) e Jhon Douglas & Jungle Boys (Brasil). 

De Portugal, além dos já referidos acima, a não perder Bruno Pernadas, com a certeza que April Marmara, Bruxas / Cobras, João Pais Filipe e Solar Corona também justificam toda a atenção. 

A jogar em casa, os First Breath After Coma apresentam o álbum Nu no Jardim Luís de Camões e projectam o filme homónimo no Centro Cívico. 

Muitos já não se lembram que Conan Osiris passou pela edição 2018 da Porta; este ano, a transgressão e desconstrução acontece com Fado Bicha. 

Quanto a estreias absolutas, há quatro, todas de Leiria: Ayamonte Cidade Rodrigo, Lost Lake, Ben-Hart e Clima (Hugo Domingues, dos Nice Weather For Ducks e Obaa Sima, com Sofia Ribeiro, antiga teclista dos We Trust, actualmente a solo no projecto Lince). 

Da Portinha às 1001 Portas. Construir um jardim colaborativo, mergulhar numa piscina em pleno centro histórico, criar robôs irrequietos, tudo é possível, ou quase tudo, até 23 de Junho. Com 10 dias de actividades, o festival, que inclui várias residências artísticas e os já famosos jantares temáticos em casas particulares, foi “pensado para mostrar a potência que há em Leiria”, explica Gui Garrido, da organização. Criatividade, tradição e comunidade, a cruzar as artes com a memória e o património. 

O grande fim-de-semana da Porta acontece a 22 e 23 de Junho, com a ocupação da Rua Direita e transversais (no sábado) e do Parque do Avião (no domingo, em formato piquenique maravilha). Mas a Porta vai muito mais além, das lojas típicas e lugares habitualmente encerrados à discoteca Stereogun, do Jardim da Vala Real à Fonte Luminosa (uma novidade), do Jardim Luís de Camões ao Centro Cívico, da Igreja da Misericórdia ao antigo edifício da EDP, do Atlas Hostel à livraria Arquivo, passando pelo Teatro José Lúcio da Silva. 

As 1001 Portas abrem caminho para propostas tão diversas como, entre outras, stand up paddel no rio Lis, uma feira bandida e uma feira independente, conversas sobre protecção do ambiente e direitos humanos, experiências de skate para invisuais, carpintaria, olaria e outras artes ao vivo e quadras populares acompanhadas à concertina numa parceria de Pedro Oliveira (grupo de teatro O Nariz) com o Sr. Ferreira. 

Já o alinhamento da Portinha, para crianças, adultos e famílias, inclui 36 iniciativas, distribuídas por quatro dias, em dois fins-de-semana. Destaque para o laboratório de fabricação digital (pela associação Oficinas do Convento), a oficina de construção de domes (cúpulas) de cartão com o colectivo Til, a máquina de desenhar do Tenório (Pastax 3200 XP 2.0) e a bicicleta do ateliê Ser que é uma performance ambulante, e política, de cidadania e serigrafia espontânea. Mas há yoga para crianças, observações astronómicas, piqueniques com histórias, jogos de rua, dança, pintura, ilustração, modelismo e até uma oficina de percussão com panelas, canos, baldes, garfos e copos. 

Um festival para todos e para todas as idades, que faz Leiria parecer do tamanho do mundo. Programa completo em festivalaporta.pt.
 

Daniel Blaufuks e mais 20 artistas na Casa Plástica

Nas antigas instalações da EDP na Rua de Tomar, entre 14 e 23 de Junho, há uma exposição colectiva de pintura, desenho, fotografia, instalação e escultura que reúne contributos de 21 artistas, incluindo Daniel Blaufuks, Mário Lopes e o colectivo Pizz Buin, há performances e concertos, e há, também, visitas guiadas, com o Festival A Porta a unir os pontos entre as artes visuais e públicos de todas as idades. 

A ter em conta: todas as performances têm apresentação única, no primeiro fim-de-semana. 

Pelas 19:30 horas de sexta-feira (14 de Junho) e até às 19:30 horas de sábado (15 de Junho), os First Breath After Coma improvisam ao vivo durante 24 horas e dão o sinal de partida para o programa da Casa Plástica, que prossegue no sábado, 15 de Junho, às 15:30 horas, com Color Chart: a Movement of Perception, de Daniela Pinheiro, peça composta por 21 módulos de amostras de cores que assumem variações de composição. 

Também, no mesmo dia, às 18 horas, Vénus em Fúrias, co-criação de Rubene Palma Carlos e do colectivo Pizz Buin, uma instalação e performance sobre a condição do artista ao querer concretizar a respectiva obra; e, finalmente, depois das 19 horas, Dédalo, do trio Urso Pardo, dois actores e um autor a utilizarem a casa enquanto metáfora para o amor, a família e o autoconhecimento. 

O edifício amarelo na esquina com a ponte Hintze Ribeiro recebe os FBAC e mais dois concertos: Captain Casablanca, projecto do dinamarquês Casper Clausen, na sexta-feira, 14 de Junho, pelas 21:30 horas; e Me And My Brain, dupla de Leiria, que viaja no território da electrónica, domingo, 16 de Junho, às 16 horas, com o espectáculo e instalação How Long is Now. 

A exposição, com o título Nada Muda de Forma Como as Nuvens, a Não Ser os Rochedos, e curadoria de Lara Portela e João Pedro Fonseca, parte da ideia de matéria para explorar o tempo, a leveza, o peso, a transformação e a poesia. 

Alexandra Ferreira, Ana Battaglia Abreu, Daniel Blaufuks, Daniela Pinheiro, Darr Tah Lei, Gil Ferrão, Inês Serpente, Joana Marcelino, Joana Patrão, Leonardo Rito com Bruno Gaspar, Mário Lopes, Mariana Malheiro, Micael Ferreira, Pizz Buin, Raquel Nogueira, Susana Soares Pinto, Telmo Ribeiro, Telmo Silva, Teresa Gameiro e Vera Gomes são os artistas escolhidos, entre convites e propostas seleccionadas através de open call. 

Para o público geral, portas abertas em horário vespertino e até às 20 horas, todos os dias, com uma única visita guiada, a acontecer no domingo, 23 de Junho, às 16 horas. Já o serviço educativo está direccionado para escolas (pré-escolar, primeiro ciclo e segundo ciclo), seniores e utentes de instituições de solidariedade social, que terminam o percurso de 80 minutos com uma oficina baseada nos processos criativos dos artistas e nos trabalhos expostos. 

Do programa da Casa Plástica faz parte também o workshop orientado pelo escritor Gonçalo M. Tavares, a acontecer na livraria Arquivo, a 16 de Junho, com o tema Escrita e Imaginação.

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