Entrevista

Maria Antónia Barreto: “Fiz a minha licenciatura à luz de candeeiro de petróleo”

31 jul 2020 20:00

Para a docente da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais, do Politécnico de Leiria, faz falta estimular o sentido crítico dos jovens

Maria Antónia Barreto, professora
Jacinto Silva Duro
Daniela Franco Sousa

Como é que uma professora com um trajecto marcado por viagens constantes está a lidar com esta nova realidade de distanciamento social?
Faz-me imensa falta andar pelo mundo. Gosto do contacto com as pessoas e de pôr o pé no chão. Gosto muito de viajar e tenho sempre em cima da mesa, ao longo do ano, vários projectos de viagens. Não são viagens turísticas. Só muito recentemente tenho feito viagens que se encaixam nessa dimensão. Ao longo destes anos todos, tenho feito viagens de trabalho, de projectos de desenvolvimento nalguns países, de projectos com organizações nãogovernamentais, onde tenho tarefas para realizar, e que me permitem ter uma abordagem muito mais realista. Nunca vou para um hotel. Vou para contextos mais reais. Estes contactos fazem-me falta, mas vou olhando para eles sempre numa perspectiva de adiantamento.

Foi fácil adaptar-se ao ensino à distância?
Para mim foi bastante fácil. Por um lado, eu tinha experiência de trabalho à distância, porque colaboro há muitos anos com a Universidade Aberta. E também temos mestrados à distância no Politécnico de Leiria. Por outro lado, entre os professores há uma camaradagem excepcional. Houve uma fase em que todos os dias nos consultávamos uns aos outros. Portanto, dei saltos tecnológicos enormes com a ajuda dos colegas. Estou entusiasmadíssima com estas aprendizagens.

Notou mudanças na postura dos alunos?
Aconteceu de tudo. A situação nos mestrados, de forma geral, foi mais facilitada, porque o número de alunos é mais reduzido. E porque estávamos no segundo semestre e já conhecíamos os alunos. Com essa relação já construída, mais próxima, existe todo um à vontade para incentivar ou para chamar a atenção. Embora nem tudo corresse sobre rodas. Sobretudo no início, os professores não tinham a noção completa do número e da profundidade de interrelações, nem do trabalho a solicitar. Da parte dos alunos, algumas vezes, também não havia sensibilidade para perceber que estávamos num contexto onde todos estávamos a aprender. E daí surgiam críticas positivas, mas também negativas. Mas, no cômputo geral, toda a gente fez bastante bem e quer professores quer alunos estão muito satisfeitos. Ainda que, com certeza, nos estágios, nas práticas pedagógicas, esses problemas sejam mais complexos do que num trabalho à volta de uma disciplina.

Perfil
Uma mulher do campo, na cidade
Maria Antónia Barreto nasceu a 11 de Dezembro de 1952 no Carregado, em Alenquer. É neste concelho que ainda reside e que gosta de passar o tempo livre entre as suas ovelhas, cavalos e uma burra. É licenciada em História, pela Universidade Clássica de Lisboa, e doutorada em Tecnologia Educativa/Ciências da Educação na Universidade de Bordéus II, em França. É professora-coordenadora na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria e investigadora do Centro de Estudos Africanos do ISCTE. Ao longo de décadas tem vindo a desenvolver vários projectos de cooperação para o desenvolvimento nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

Esta nova realidade de ensino agravou as desigualdades sociais dos estudantes?
Veio aumentar as desigualdades sociais. E muito. Para que este ensino à distância funcionasse, as pessoas tinham de ter em sua posse a tecnologia, tinham de conhecer essa tecnologia e tinham de ter essa competência. E, entre os primeiros ciclos de ensino, as famílias tinham de ter sensibilidade para trabalhar com os filhos. E sabemos que a população portuguesa, tal como outras populações por este mundo fora, não tem. Muitas famílias continuam ainda sem valorizar a escola e também muitas famílias não têm a informação de base que lhes permita ajudar os filhos. As pessoas não têm recursos. Se em casa têm três filhos e um só computador, como é que a coisa é feita? Se não têm espaços em casa com sossego, onde é que a criança se coloca?

Fá-la lembrar das dificuldades que teve de ultrapassar para se formar.
Fiz a minha licenciatura à luz de candeeiro de petróleo. Tive electricidade e água canalizada em casa quando já era cooperante na Guiné Bissau e já tinha 30 anos. Mas os tempos eram tão diferentes que eu, a estudar com candeeiro de petróleo, era uma privilegiada junto das minhas colegas de escola que ficaram costureiras. Quando não iam trabalhar para o campo. Os mais novos não se dão conta do que acontecia há 50 anos, quando as famílias valorizavam a escola. Da antevisão que as pessoas tinham de que a mobilidade social vinha pela escola. Coisa que hoje já não acontece. Há 50 ou 60 anos, as famílias que tinham projectos de desenvolvimento da escolaridade dos seus filhos faziam um sacrifício enorme para que tal acontecesse. Os meus avós eram analfabetos e gente muito pobre. A minha mãe teve uma promoção enorme porque fez a quarta classe. E a minha mãe investiu imenso, e pelo meio ficou viúva, de forma a que eu e o meu irmão tivéssemos curso superior, o que na minha família era coisa inédita. Havia valorização dos percursos académicos. Valorização do professor, isso nem se questionava.

E ficou-lhe de tal forma na pele, que não poupou esforços para concluir o seu doutoramento.
Entrei no percurso de doutoramento completamente por acaso. Eu era professora num liceu em Lisboa e encontrei uma colega que me disse que tinha aberto concurso para trabalhar nas futuras Escolas de Educação. Lembrei-me de concorrer. Estava na maternidade a ter a minha filha mais velha, quando uma visita me disse “olha que tu entraste”. Isso implicava que eu fosse para Bordéus. A minha filha nasceu em Julho e

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