Opinião

Um novo ano, as mesmas dúvidas

11 jan 2026 21:30

Enquanto nos pedem mais foco, mais energia e mais produtividade, o mundo enfrenta crises que não entram nas resoluções de Ano Novo.

Chegou 2026. Um novo ano que, como tantos outros, veio carregado de esperança.

Na numerologia, é considerado um Ano 1, símbolo de recomeços e novos ciclos.

No calendário chinês, fevereiro marca a transição para o Ano do Cavalo, associado à mudança, ao movimento e à coragem.

Também na astrologia ocidental se multiplicam previsões sobre renovação energética e novos começos.

Entre previsões astrológicas, significados numerológicos e discursos motivacionais, a mensagem repete-se: este é o ano para recomeçar, fazer melhor, ser mais.

Mas, mal o ano começa, chega também a pressão. A pressão do “novo ano, novo eu”. Mais produtividade, mais foco, mais eficiência, mais metas, mais sucesso.

Como se a mudança fosse automática, como se bastasse virar a página do calendário para nos tornarmos versões melhoradas de nós próprios.

Esta lógica ignora algo essencial: ninguém recomeça do zero. Entramos em 2026 cansados, ansiosos, muitas vezes desiludidos. E isso não nos torna fracos, torna-nos humanos.

O problema é que esta promessa de renovação ignora o contexto em que vivemos.

Enquanto nos pedem mais foco, mais energia e mais produtividade, o mundo enfrenta crises que não entram nas resoluções de Ano Novo.

Como cultivar esperança quando o noticiário continua dominado por guerras, conflitos armados, crises humanitárias, económicas e sociais?

Como manter motivação para “ser melhor” quando o sistema parece falhar constantemente? Como criar impacto positivo quando sentimos que tudo à nossa volta está a desmoronar?

Lembro-me muitas vezes da mensagem central da série The Good Place. Sem querer dar spoilers, num mundo estruturalmente injusto, ser uma “boa pessoa” tornou-se incrivelmente difícil.

Não por falta de vontade individual, mas porque as escolhas éticas estão condicionadas por sistemas que não controlamos.

Talvez a pergunta não deva ser “como posso ser perfeita em 2026?”, mas sim “como posso ser um pouco mais consciente, empática e responsável, apesar de tudo?”.

Enquanto jovem privilegiada, sinto estas dúvidas diariamente. Tenho (demasiado) tempo e informação para refletir sobre estas questões.

Nem quero imaginar o peso que recai sobre quem vive em contextos de maior vulnerabilidade, onde a sobrevivência se sobrepõe a qualquer discurso de autoaperfeiçoamento.

Talvez 2026 não precise de mais promessas vazias, mas de mais honestidade. Menos pressão para sermos excecionais e mais espaço para sermos humanos.

Talvez o verdadeiro recomeço esteja em aceitar que avançar, mesmo devagar e com dúvidas, já é um ato de resistência.