Opinião

Um livro nunca é apenas só ele

6 set 2026 21:00

Mas de volta ao livro, Montero pega nas suas memórias e explora a íntima relação entre a criatividade artística, a neurodivergência e a saúde mental

Um amigo deu-me de Rosa Montero o livro O perigo de estar no meu perfeito juízo e se há livros que me dão umas bofetadas valentes este é, sem dúvida, um deles!

É daqueles que me faz sentir algo masoquista uma vez que sou obrigada a pular dele para o exterior e aceito sofrer com o que ele me leva a aprender sobre as origens dos sentimentos produtores das excentricidades dos meus/nossos comportamentos e com mágoa consinto ver a minha ignorância crescer cada vez que aparece uma referência a algum génio da literatura que, até esse momento, eu desconhecia ou da sua obra muito pouco sabia!

Mas de volta ao livro, Montero pega nas suas memórias e explora a íntima relação entre a criatividade artística, a neurodivergência e a saúde mental e defende que a suposta “normalidade” é apenas uma convenção social responsável por tantas vezes, ao olharmos para os comportamentos excêntricos dos génios criativos, neles vermos alguma loucura.

Para ela, o cérebro de escritores processa a realidade de forma diferente, surgindo uma grande obra artística quando se dá a combinação única e irrepetível de fatores químicos cerebrais e determinadas experiências biográficas que permitem que o artista construa a sua obra como um mecanismo de defesa psicológica contra traumas antigos.

Para provar a sua tese sobre o trauma, a dissociação e a “fiação” cerebral única dos artistas a autora pega na vida e nos colapsos mentais de Virginia Woolf, Ernest Hemingway, Sylvia Plath, Marcel Proust e Emily Dickinson, todos eles grandes vultos da literatura mundial.

E eis que é por causa da demonstração imbricada desta tese de Rosa Montero - ser para o criador um fardo muito pesado e até perigoso quando em busca de uma lucidez “normal”, perante o sofrimento do mundo e os abismos da própria mente, transforma a sua obra numa via de salvação - que eu agora, ainda dentro mas também já fora do livro, me encontro a olhar para os escritos de Michel Foucault e a ter de refletir sobre se é ou não a suposta normalidade apenas uma construção cultural usada pelas estruturas de poder para disciplinar os corpos e as mentes.

Pus-me a pensar como gostaria de partilhar e discutir esta minha reflexão com professores numa escola, mas agora, inevitavelmente, já é tarde e senti-me a morrer!

Porém, de repente, algo aconteceu!

Lembrei-me que Rosa Montero me apresentou Emily Dickinson, e dela pus-me a ler: Porque eu não podia parar para a Morte - Ela gentilmente parou para mim - A Carruagem continha apenas Nós — E a Imortalidade.(…) e sim, acreditem ou não, a falar assim da morte eu senti-me a voltar à vida. E tudo por causa de um livro!

Será isto normal?