Opinião

Transparência

10 abr 2017 00:00
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Paulo Kellerman, escritor

Estou na varanda a apanhar sol e, como é hábito, penso disparates. Por exemplo: uma prova da inexistência de deus é o facto de as pessoas terem a pele opaca.

Uma entidade perfeita, caso existisse, teria criado os humanos com pele transparente. Como a vida seria mais fácil e enriquecedora se pudéssemos olhar para dentro dos outros, e os outros para dentro de nós; ver a realidade pura, sem subterfúgios nem máscaras nem disfarces.

O sol está forte e aquece-me a careca, o pensamento seguinte é óbvio: se a pele fosse transparente, bronzearia ou não? Rio um bocadito do disparate, e rir sozinho é um prazer bom, apesar de se achar que é coisa de doidos.

Quando o riso passa, distraio-me com uma vizinha que se aproxima; talvez a veja uma ou duas vezes por semana e nunca lhe descobri um sorriso. Oito anos, zero sorrisos. Porquê? Se a senhora fosse transparente, talvez conseguisse perceber o que lhe rouba o sorriso; ou para quem o guarda.

A vizinha desaparece e logo a esqueço, lembro-me que podia ir buscar um livro e ler um bocado; mas distraio-me com uns pássaros que esvoaçam como se não houvesse passado ou futuro, como se nada importasse além do simples bater das asas.

Será que os pássaros têm depressões? Não, é impossível; qualquer ser que tenha a capacidade de voar estará geneticamente impedido de sentir tristeza.

Se tivesse o telemóvel à mão, mandava uma mensagem a uma amiga veterinária a perguntar: os pássaros sentem tristeza? E depois íamos tomar um café. Talvez lhe dissesse: o facto de haver pássaros poderá ser uma prova da existência de deus, não achas?

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*Escritor