Editorial

Refugiado não rima com repudiado

22 jul 2021 00:00

É de gratidão que vos falamos esta semana, através dos testemunhos de vários refugiados, acolhidos e integrados, em concelhos como Batalha, Ourém ou Marinha Grande

O mais provável é já terem ouvido falar de globalização. Mas será que todos sabem o que significa verdadeiramente?

Grosso modo, para quem possa ter-se esquecido, a globalização surgiu com o objectivo de reduzir as barreiras migratórias e económicas entre países, com a intenção de fomentar as relações entre os povos.

À boleia deste processo, entre outras coisas, tornou- se mais comum a saída em férias para destinos exóticos, e mais banal a compra de artesanato ‘indígena’ numa qualquer feira de Verão.

Aumentou- se a dinâmica da mobilidade, mas talvez nem tanto a capacidade de aculturação.

Afinal, o que significa uma semana de resort, com pelo menos meia pensão incluída, por exemplo, numa estância balnear do Norte de África? Provavelmente, o insuficiente para absorver um mínimo da essência local.

Atentem nesta história real. Durante uma viagem ao deserto, com um grupo de praticantes de todo-o- terreno, foi preciso parar num posto de abastecimento de combustível.

A pequena vila, de casas baixas cor de terra, parecia deserta. Mas assim que os veículos se imobilizaram na estação de serviço, logo apareceram as crianças, vindas sabe-se lá de onde.

Uma, mais afoita, para aí com oito ou nove anos, ganhou coragem e aproximou- se. Após várias tentativas de comunicação, fez saber que estava à procura de autocolantes.

O mais certo era já estar habituada a ver por ali passar os jipes em manada, coloridos de marcas patrocinadoras e carregados de estrangeiros, muitos deles dispostos a abrir mão de umas bolachas, de uma mão cheia de rebuçados, de uma esferográfica, ou até de uma t-shirt com publicidade a uma qualquer empresa.

Ainda assim, a sua abordagem foi diferente: só queria um autocolante. Em vez de um, demos-lhe quatro ou cinco.

Os pequenos olhos de castanho escuro vivo inundaram- se de felicidade. Fez um sinal firme para que esperássemos. E insistiu.

Uns minutos depois, surgiu em sprint, na sua pequena e estafada bicicleta, dirigiu-se a nós com um sorriso vitorioso e entregou-nos um mini-cachecol de lã, tricotado à mão e já usado.

Era a sua recompensa. Era a inocência de uma criança a mostrar o lado mais nobre de um povo: a gratidão.

E é de gratidão que vos falamos esta semana, através dos testemunhos de vários refugiados, acolhidos e integrados, em concelhos como Batalha, Ourém ou Marinha Grande.

Pessoas que se atiraram para o desconhecido, em busca de paz e de um sentido para a vida.

E que encontraram ‘tudo isso’ na nossa região. Mérito para quem tão bem as acolheu, polegar ao alto para quem deu um exemplo prático do lado bom da globalização, ao demonstrar com acção que refugiado não rima com repudiado.

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