Opinião

Preciso de um herói

10 set 2023 10:15

Portugal é, na imortal expressão de Torga, um “moinho cruel que nos tritura”

Apesar de termos vários heróis em Portugal, heróis sem capa, mas à civil ou de uniforme de bombeiro, polícia, atleta ou médico (e, raramente, de fato e gravata), Portugal não é um País para heróis.

Enquanto o inglês tem o Rei Artur, os franceses a Joana D’Arc, os russos o Nevsky, os espanhóis o Quixote, nós por cá, temos a mania de nos celebrarmos muito pouco, e mesmo percorrendo a nossa história, literatura e tradição é-nos difícil concordar num herói nacional e dar-lhe graças, em harmonia popular.

Apesar disso, cada vez que alguém diz mal da nossa comida, história, futebol ou praias, temos uma capacidade de nos abespinharmos em uníssono, uma espécie do complexo brasileiro do “vira-lata” mas um que morde e ladra, ladra muito.

Mas, quem é o nosso herói nacional ou, melhor, o nosso herói consensual?

Vamos à História que tantos querem, politicamente, enterrar. Será Afonso Henriques? Um “bruto”. D. Sebastião? Um “loser”. Marquês de Pombal? Um “assassino”. Giraldo sem pavor? Um “desconhecido”. Salazar...poupem-me. Cunhal? Soares? Telhados de vidro.

Desporto: Ronaldo? “Só quando marca, de resto um arrogante”. Pimenta, Pichardo, Telma Monteiro, Pedro Lamy? Ou é saloio, ou estrangeiro, ou perdedora, ou irrelevante, temos esta capacidade de pôr defeitos em tudo e todos.

Na arte? Nem vale a pena começar a citar nomes. São todos uns “encostados”.

Na atualidade? Moedas, Papa Francisco, Marcelo, Obama, Zelensky, Assange? Difícil se torna a escolha. Portugal é, na imortal expressão de Torga, um “moinho cruel que nos tritura” e somos (quase) incapazes de estar de acordo em quase tudo, menos nas “bengaladas” com que continuamos a desancar a cabeça do nosso País.

Moral da história: nunca ninguém é suficientemente bom a começar por nós mesmos.

É nisto que dá a falta de heróis.