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Hádoc. Onde a Rocha Fende oferece a companhia de alguém que não desistiu
Esta terça-feira no Teatro Miguel Franco
Parceria JORNAL DE LEIRIA e Hádoc - Festival de Cinema Documental. Texto de Nuno Granja, coordenador e programador do Hádoc.
Há um tipo de obstinação que não se explica com facilidade. Não é teimosia cega, nem sequer coragem no sentido clássico — a coragem de quem avança porque não tem medo. É antes a determinação de quem avança apesar do medo, e apesar de tudo o que lhe disseram que era impossível, impróprio ou, simplesmente... que não lhe dizia respeito. É sobre essa obstinação, entre outras coisas, que Onde a Rocha Fende (Cutting Through Rocks, 2025) trata.
Este é o documentário de estreia da dupla (e casal) de realizadores Mohammadreza Eyni e Sara Khaki e que, desde que foi apresentado em Sundance, em janeiro de 2025 (tendo ganho o Grande Prémio do Júri, nessa competição), tem percorrido festivais de forma imparável, acumulando prémios do público em Nyon, Amesterdão ou Auckland, e chegando à lista de nomeados para o Óscar de melhor documentário, na cerimónia de 2026.
No centro do filme está Sara Shahverdi, a primeira mulher eleita para o conselho local de uma aldeia rural no Irão. O que começa por parecer uma história de vitória política rapidamente se revela muito mais complexa e, talvez por isso mesmo, mais interessante: Sara quer ensinar raparigas adolescentes a andar de mota e combater os casamentos infantis, incentivando-as a perseguir carreiras como engenheiras e médicas. Numa teocracia (patriarcal) como é o Irão, a contestação não tarda, obviamente, em chegar. De forma também pouco surpreendente, a protagonista, face a estas dificuldades depara-se com uma crise de identidade que o filme acompanha sem hesitar e sem embelezar.
Eyni e Khaki prepararam o filme viajando ao longo de cerca de 6 anos para a aldeia do Irão onde Sara reside, em períodos tipicamente de 2 meses. A abordagem revela uma contenção que respeita a protagonista sem a transformar num símbolo fácil. Sara Shahverdi não é uma heroína sem contradições, e é precisamente essa recusa em simplificar ou facilitar que torna o documentário tão perturbador e tão necessário.
O júri de Sundance descreveu-o como um retrato "corajoso e excêntrico" de alguém que confronta uma sociedade dominada por homens, sublinhando o calor e o humor da figura central. O humor, sobretudo, é o que muitas vezes falta a este tipo de cinema: a capacidade de rir, mesmo (e especialmente) quando se está a “atravessar rochas”, ou ultrapassar escolhos.
Onde a Rocha Fende não oferece conforto fácil nem catarse redentora. Oferece algo mais raro: a companhia de alguém que não desistiu, e a incómoda pergunta sobre o que faríamos nós no seu lugar.
12 de Maio, Teatro Miguel Franco, Leiria, 21h30
Onde a Rocha Fende
De Mohammadreza Eyni e Sara Khaki
Cutting Through Rocks | 95 min | Irão, EUA, Alemanha | 2025 | m/14
* Óscares 2026 – Nomeado Melhor Documentário
* International Documentary Film Festival Amsterdam 2025 – Vencedor Melhor Documentário
* Sundance Film Festival 2025 – Vencedor Grande Prémio do Júri
* Woodstock Film Festival 2025 – Vencedor Melhor Documentário
Sinopse:
O rugido de um motor rompe o silêncio das planícies do noroeste do Irão. É Sara Shahverdi, parteira de profissão, motard por rebelião e política por desafio, a primeira mulher eleita para o conselho da sua aldeia. Divorciada e sem filhos, Sara não se limita a ocupar um lugar à mesa dos homens – quer incendiar essa mesa. O seu objetivo é tão simples quanto radical: ensinar as raparigas da comunidade a andar de mota, garantir-lhes o direito à educação e à propriedade, e lutar contra uma tradição que as destina a casamentos infantis.
Filmado ao longo de oito anos com uma intimidade impressionante, o documentário de Sara Khaki e Mohammadreza Eyni acompanha cada passo desta mulher extraordinária, enquanto enfrenta a hostilidade dos colegas do conselho, as suspeitas da comunidade e as suas próprias dúvidas. Quando acolhe em casa Fereshteh, uma adolescente que tenta escapar a um casamento forçado, a tensão atinge o limite, expondo o preço pessoal de desafiar séculos de patriarcado.
Mas Sara não é uma mártir, é uma força da Natureza. Com uma determinação inabalável e uma sagacidade política afiada, vai abrindo caminho onde parece haver apenas pedra. Os realizadores captam cada pequena vitória: nuvens de pó levantadas pelas motas, raparigas a conquistar um espaço próprio, uma porta que range ao abrir-se para futuros inesperados .
Nomeado aos Óscares, vencedor do Grande Prémio do Júri de Sundance em 2025 e nomeado aos Prémios do Cinema Europeu, Onde a Rocha Fende é um testemunho visceral de que, por vezes, uma pequena centelha da liberdade chega para iluminar o mundo.