Opinião

Por conta própria

17 out 2017 00:00
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Fernando Ribeiro, músico

Vamos aos factos conhecidos:

As mortes confirmadas, só entre Pedrogão Grande e os fogos de Outubro recente, são 164. Sessenta e quatro são os números de Pedrogão (Junho 2017) e a centena pertence à última série de fogos que assolaram o “norte do Tejo” em especial o Centro e que castigaram a região de Leiria, rodeando a cidade de Braga. Não vamos ser exaustivos, este números doem e cansam.

A expectativa de que outra tragédia se abatesse sobre os Portugueses nesta altura era nula. Viveu-se o optimismo das autárquicas, os pequenos circos locais e os chouriços pelo correio encheram as nossas notícias. Tudo estava bem. 

Consta que há um relatório de Pedrogão Grande a avisar a Protecção Civil da possibilidade de outra ocorrência semelhante, mas, ou por uma inacreditável inoperância que roça a negligência; ou por optimismo; ou por não ter tido tempo útil para se reorganizar depois de Pedrogão; o SNPC não conseguiu preparar ou reparar o desastre de Outubro.

Vamos às teorias:

A mim, como cidadão, interessam-me todas. O que não me interessa nada é o "pôr água na fervura" burguês, de quem passeia o Expresso ao Sábado no mercado local. Tudo deve ser discutido: a lei da plantação dos eucaliptos; as plantações de espécies alternativas; o fogo posto e organizado; as posições e comunicações públicas das indústrias transformadoras de papel; os loucos pirómanos da aldeia; a legislação mais pesada; o policiamento ou patrulhamento das florestas; a intervenção das Forças Armadas e da Aviação Portuguesa; a limpeza dos terrenos; as matas; os particulares; o clima; as tempestades perfeitas; o regresso da Guarda Florestal e dos postos de vigia; os bombeiros, a profissionalização dos mesmos; a criação de um grupo de intervenção de elite para fogos florestais; discutam-se os autarcas que só aparecem para chorar os mortos; e sim, por favor, o Estado. Discuta-se o Estado.

Discutamos para que todos  consigamos entender a importância simbólica da demissão da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e a demissão do presidente da Protecção Civil, general Joaquim Leitão, por ambos terem falhado no seu lema e missão de “planear, coordenar e executar a política de protecção civil”.

A importância de este ser o tempo certo, ao contrário do que a ministra diz, de ser agora ou nunca, para que seja dado um sinal concreto de mudança ao cidadão, porque o que custa mais, logo a seguir à morte, é a leveza política, alavancada num sentimento de impunidade que é palpável no ar cheio de fumo. Inteligível nos discursos do nosso primeiro-ministro e do nosso Presidente da República.

Sim eles são fixes como Soares era, mas isso agora não nos deve bastar.

Vamos às verdades:

Os cidadãos não se sentem, de todo, protegidos contra os fogos florestais.

Os cidadãos não estão, de todo, satisfeitos com as explicações avançadas após relatórios, acerca da origem e resolução dos desastres florestais de Junho e temem que o mesmo aconteça com os fogos de Outubro.

Os cidadãos querem demissões. Não há condições de continuidade para a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e o presidente da Protecção Civil, Joaquim Leitão. Querem responsabilização invés de impunidade.

Os cidadãos concordam que não houve, no geral, preparação ou capacidade efectiva de resolução destes incêndios apesar do financiamento de todas as instituições envolvidas, em particular do SNPC, para levarem a cabo melhorias, investigações e propor alternativas que reduzam, e em tempo útil acabem com este flagelo anual.

Os cidadãos sabem, porque não são idiotas que nem a ministra ou o presidente do SNPC atearam os fogos ou controlam as temperaturas. Mas, na mesma lógica, não têm dúvidas de que não foram capazes de liderar e coordenar o seu staff e os seus meios para diminuir a tragédia. Pelo contrário, os seus comentários e relatórios são insípidos e banais, provocando a revolta dos cidadãos.

Os cidadãos apontam o dedo ao Governo e à Protecção Civil por ter falhado na obrigação constitucional de os proteger.

Os cidadãos aplaudem e abraçam a intervenção de todos os populares, dos bombeiros, da comunicação social, das redes sociais, para que denunciem e exijam a mudança imediata deste paradigma de destruição, morte, incompetência e impunidade.

Os cidadãos devem de ir aos quartéis dos bombeiros que, em fase de rescaldo ,ainda precisam da vossa ajuda (conservas, café em pó, água, barras de cereais, bolachas, nada de frescos); os cidadãos podem e devem reunir-se para conversar, debater, exigir quer em sua casa, quer na praça púbica. Os cidadãos não desistem do seu país, nem o trocam por nenhum dinheiro ou posição no mundo. E por isso, temos todo o direito à justiça.

Se assim não for, os cidadãos deixarão de acreditar no Estado e na Protecção Civil. E passarão a assumir um estatuto que, se calhar, já era seu neste Portugal que, por outra vez, ardeu perante os nossos olhos e que só a chuva salvou:

Cidadãos por conta própria. 

*músico e vocalista da banda Moonspell