Opinião

Pois sou

4 jun 2020 19:04

Os defensores da teoria do artista-parasita compreenderem que o trabalho artístico é isso mesmo, trabalho; ou seja, merecedor de respeito e remuneração justa.

A minha filha termina por estes dias o segundo ano de um curso de artes.

Quando andava no secundário, ouviu de colegas que frequentavam outras áreas de estudo comentários sobre a irrelevância dos cursos de artes.

Respondia algo do género: «Gostava de saber como aguentarias a tua vida sem música e cinema e pintura e literatura e jogos e fotografia e dança e todas as outras artes.»

Costumam existir duas posições antagónicas: de um lado, um certo endeusamento dos criadores, como se fossem seres superiores a quem tudo é devido; do outro, um certo desprezo por quem cria, como se a arte nascesse do ar, dispensando a acção e o esforço. São os defensores desta última postura que vão perpetuando a velha ideia de que os criadores são pouco mais do que parasitas da sociedade; afinal, se neste momento parar de ser criada arte, no YouTube têm material suficiente para se entreterem durante uma vida ou duas.

Que este pensamento subsista, é triste. Mas existe forma de o combater?

Deverá haver por aí uma infinidade de propostas; portanto, não virá mal ao mundo se juntar a esse pacote mais algumas sugestões; simples e utópicas.

Primeiro passo: perceber claramente que existe uma diferença entre cultura e entretenimento; não se chega a lado nenhum sem antes aceitar que uma coisa é estimular o pensamento, a acção, a curiosidade, as emoções, o sonho ou a liberdade e outra coisa é distrair ou divertir.

Segundo passo: apelar àqueles criadores que se encontram em pedestais que desçam até cá abaixo e percebam que se os seus egos conversarem com os egos dos outros talvez possam nascer ideias bonitas.

Terceiro passo: os defensores da teoria do artista-parasita compreenderem que o trabalho artístico é isso mesmo, trabalho; ou seja, merecedor de respeito e remuneração justa.

Quarto passo: aproximar criadores e públicos numa relação de pares; nem o criador é um deus alvo de veneração, nem o público é uma entidade anónima e passiva; são pessoas.

Como fazer isso?

Por exemplo, criando residências artísticas de longa duração em que criadores e público-tornado-criador participam na concepção de projectos concretos (peças de teatro, exposições, livros, álbuns de música); em que todos são pagos e portanto igualmente responsabilizados e valorizados; em que todos contribuem com as suas experiências e conhecimentos; em que os trabalhos criados são públicos e sujeitos a opinião.

E porquê?

Porque fazer parte do processo criativo aumenta o espírito crítico; porque quem tem coragem de participar activamente deixa de veicular sentenças vazias, pois passa a conhecer na pele os desafios, as dores e os prazeres da criação e produção de algo; porque quem faz e não se limita a falar conquista liberdade e respeito.

Mas quem paga?

Voltamos ao início: aqueles que acham que os recursos públicos apenas devem ser canalizados para pontes e hospitais e bancos por acaso aguentariam a vida sem música e cinema e pintura e literatura e jogos e fotografia e dança e todas as outras artes?

Utópico? Pois sou. 

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