Opinião

Olhar para o alto

9 jun 2017 00:00
joao-lazaro-psicologo-clinico
João Lázaro, psicólogo clínico

Mão estou certo se a expressão se enquadra aqui, mas ainda assim arrisco, pelo que vou fazer uma declaração de intenções: “Não percebo nada de artes plásticas!”.

Consigo, como é comum, identificar a obra deste ou daquele pintor, embora, amiúde, lhes confunda os nomes. Quanto muito saberei o nome de algumas correntes mas jamais me atreveria a explicar os seus fundamentos.

Visito museus e galerias a horas mortas porque temo encontrar alguém conhecido, e não quero correr o risco que me peça para opinar sobre as obras expostas e assim dar a conhecer a minha ignorância.

Há vezes em que, basbaque, tenho dificuldade em reconhecer algumas coisas como criações artísticas e fico a pensar que o autor é um pândego que só está a gozar com o povinho, o que me acontece muito quando deparo com objetos de uso comum pintados de modo vistoso ou rachados, quando não mesmo feitos em cacos, com uma placa a dizer “sem nome” e por baixo um valor pretendido que é, as mais das vezes, obsceno.

O mesmo olhar bovino assumo quando me apresentam uns traços sem geometria nem sentido, manchas informes e ocas de beleza, e me dizem que é arte.

Por hábito, fujo das inaugurações de qualquer exposição porque a minha dicção em francês é péssima e não sei enrolar a língua para dizer vernissage, porque não aprecio vinho espumante meio-seco, porque nunca sei como vestir para ficar com pose de intelectual erudito nas fotografias da praxe, porque tenho problemas de vesícula e a mistura de croquetes com certas doses de pedantismo me provocam azia e digestões prolongadas.

Fico-me, pois, por meia-dúzia de obras que me enfeitam as salas. Umas poucas são ofertas generosas de artistas com quem a vida me deu o privilégio de cruzar. As restantes aquisições modestas de pintores em início de carreira e que vendiam baratinho. Em ambos os casos escolhidas a gosto e porque razões avulso me encantaram pelo que via e me fizeram pensar e sentir coisas diferentes na dolência dos dias.

Leia mais na edição impressa ou torne-se assinante para aceder à versão digital integral deste artigo.

 

*Psicólogo clínico

Texto escrito de acordo com a nova ortografia.