Opinião

Ode à alegria

3 ago 2021 15:40

O último ámen do "Resquiescant in pace" despertou a audiência de um sonho primordial

"Ó amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria!"

Reza a lenda que no naufrágio do gigante Titanic a orquestra tocou ao fim. Talvez seja esse o nosso destino, enquanto a anestesia do todos contra todos tomar conta de nós.

Mas, falemos de música, para desenjoar desta terrível viagem: no dia 9 de Julho passado, cancelei as apresentações do meu romance na Brandoa, o bairro que o inspira. Não preciso de revelar as razões, todos as sabemos e estamos bem fartos delas.

No entanto, não dei o dia por perdido. Fui ao Dr. Barber a Leiria cortar o cabelo com o Jorge (Libório) e à noite fui ver a missa cantada pelos Cappela Santæ Crucis, evento incluído na 29ª edição do CisterMúsica, o festival de música erudita que, todos os anos, junta os que a vida separa.

No refeitório do Mosteiro de Alcobaça, durante 70 minutos, rezou-se um antigo ofício da melhor tradição polifónica portuguesa.

O que lá vivi, para mim guardo, por incapacidade absoluta de o comunicar através de caracteres lidos.

O último ámen do Resquiescant in pace despertou a audiência de um sonho primordial, e o acordar foi feito ao som de, talvez, um dos maiores e mais longos aplausos alguma vez ouvidos para celebrar música antiga.

Os músicos e os cantores voltaram várias vezes ao círculo improvisado do “palco” a colher as gotas da chuva dos aplausos.

Quando saímos da sala, cá fora, já nos corredores do jardim do Mosteiro, esperava-nos outro espectáculo: todos os elementos da Cappela se abraçavam e celebravam tão efusivamente como tinham sido aplaudidos, como a Itália a ganhar o Euro.

Um hino à alegria, ao poder da música, sem género, latitude, sem as ditaduras comparativas dos críticos.

Uma vitória que também eu saboreei, por adesão, num campeonato muito mais difícil que os de futebol, jogado contra um governo que nos destrói e uma opinião pública que nos despreza.

 

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